Nacho Doce/Reuters
Nacho Doce/Reuters

No Jacarezinho, a cracolândia cresce às escondidas

Hoje, no Rio, 104 crianças e adolescentes estão internados, após serem tirados das ruas; em 7 meses, já são 15 blitze na região

Fábio Grellet, da sucursal do Rio,

10 Dezembro 2011 | 18h46

RIO DE JANEIRO - A versão carioca da cracolândia fica no Jacarezinho, favela situada na zona norte do Rio. A região concentra muitos moradores de rua e é cortada pela linha de trem da Central do Brasil, que serve os subúrbios do Rio.

 

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Ao contrário de São Paulo, onde o crack é consumido à vista de todos, em ruas bastante movimentadas da região central, na cracolândia carioca a droga é usada de forma mais discreta, principalmente ao longo da linha férrea. Quem caminha por ali encontra muitos cachimbos abandonados, além de pequenos barracos improvisados onde usuários se reúnem para consumir crack. Durante uma operação recente, assistentes sociais encontraram cerca de dez pessoas usando a droga dentro de um barraco onde havia até animais mortos. Nos últimos sete meses, a Secretaria Municipal de Assistência Social promoveu 14 operações no Jacarezinho – e a 15.ª está prevista para amanhã.

Internação. Foram realizados 898 acolhimentos (mais de dois terços são adultos; os demais, crianças e adolescentes). As pessoas recolhidas são submetidas a triagem e encaminhadas para abrigos. Crianças e adolescentes podem ser internados compulsoriamente, mas adultos só permanecem nos abrigos se quiserem. A maioria, no entanto, volta para o Jacarezinho.

Por isso, a cada operação, é habitual que os assistentes sociais reconheçam muitos usuários pelo nome, porque já foram alvo de operações anteriores.

Na quarta-feira, 89 pessoas foram recolhidas das ruas da região, enquanto se anunciava o plano nacional anticrack. Entre eles estavam 82 adultos e 7 adolescentes, considerados moradores de rua e usuários de crack, que foram submetidos a triagem. Os adolescentes identificados como dependentes químicos graves foram encaminhados para tratamento em uma das quatro unidades de abrigamento obrigatório.

Direitos humanos. Em reação a essa política municipal, entidades defensoras dos direitos de crianças e adolescentes promoveram, anteontem na frente da Assembleia Legislativa do Rio, um protesto contra a internação compulsória, adotada pela Secretaria Municipal de Assistência Social há seis meses.

Na cidade de São Paulo, apesar de a gestão Gilberto Kassab (PSD) ter sinalizado a intenção de endurecer a política de saúde e aumentar a internação compulsória de usuários de crack, os consumidores só são internados contra a vontade quando há risco de vida. Em dois anos, a cidade registrou somente 150 casos de internações do tipo.

O atual modelo paulistano, mais moderado que o carioca, deve servir como referência às ações que o governo federal vai criar nos demais Estados. Hoje, no Rio de Janeiro, 104 crianças e adolescentes estão internados nas quatro unidades do município.

"O usuário de crack não tem condições de avaliar se quer continuar usando drogas. É dever do Estado intervir e zelar pela saúde dessas pessoas", afirma o secretário municipal de Assistência Social do Rio de Janeiro, Rodrigo Bethlem. Ao lado do prefeito da capital fluminense, Eduardo Paes, ele é acusado pelas entidades de desrespeitar os direitos humanos ao adotar a internação obrigatória.

 

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