'Ninguém vai revistar a mala de quem paga R$ 3.500 por hora'

Pilotos e órgão que administra voos regulares admitem falhas; Infraero diz que responsabilidade é de concessionários

O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2011 | 03h03

"Ninguém vai revistar a mala de um passageiro que paga R$ 3.500 por hora de voo. Sempre se pressupõe que seja uma pessoa honesta. Nem é uma responsabilidade da empresa fazer essa revista", diz o piloto de uma empresa de táxi aéreo que opera no Campo de Marte, em São Paulo. Segundo outros pilotos, pegar uma aeronave ali é como tomar um táxi na rua.

A Infraero diz que a responsabilidade pelo acesso aos hangares do Campo de Marte é dos próprios concessionários. Fala que mantém vigilância 24 horas nas entradas do aeroporto e câmeras de segurança. Na prática, não há abordagem a quem pretende chegar aos hangares.

Já os seis principais aeroportos do interior com voos regulares administrados pelo Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo (Daesp) não têm como impedir que uma pessoa embarque com uma mala carregada de dinheiro, armas ou drogas. Apesar de bagagens de mão passarem por fiscalização eletrônica e manual, falta aparelho de raio X para checar o conteúdo de malas transportadas no porão (compartimento de carga) em São José do Rio Preto, Ribeirão Preto, Marília, Presidente Prudente, Bauru e Araçatuba. Segundo técnicos de operação dos aeroportos ouvidos pela reportagem, é possível transportar cocaína de Campo Grande a São Paulo ou trazer produtos roubados de São Paulo para Araçatuba sem chamar a atenção.

Já o Daesp disse que vai instalar aparelhos de raio X para porão em aeroportos com voos regulares. Sobre o controle de bagagem, diz que legislação determina que a companhia aérea tenha procedimentos para controlar o que é despachado.

Drogas. Se aeroportos com voos regulares não têm fiscalização, a situação é pior em aeroclubes menores. Usado pelo tráfico como ponto de abastecimento e desova de cocaína, o de Guararapes, a 560 quilômetros de São Paulo, não possui controle de pouso ou decolagem e foi palco nos últimos cinco anos de apreensões de mais de meia tonelada de cocaína trazida do exterior. Mesmo com as apreensões, não há no aeroporto nenhum posto de polícia ou vigilância. Além disso, os pousos e decolagens não são registrados.

Em Sorocaba, a situação é parecida. "Se um passageiro embarca com drogas ou armas, nem ficamos sabendo. Não temos competência para fazer revista ou examinar a bagagem", disse o dono de uma empresa de fretamento e manutenção de aeronaves. / W.C., M.G, JOSÉ MARIA TOMAZELA, TATIANA FÁVARO e CHICO SIQUEIRA, ESPECIAL PARA O ESTADO

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