Ninguém foi preso este ano em três distritos policiais

Freguesia do Ó, Campo Grande e Vila Matilde zeraram em prisão por mandato judicial; população reclama de atendimento Policial diz que o foco são as quadrilhas

MARCELO GOMES / RIO, BRUNO DEIRO, MARCELO GOMES / RIO, BRUNO DEIRO, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2013 | 02h04

Às vésperas da Copa das Confederações, evento que vai atrair milhares de turistas para o Rio de Janeiro, um engenheiro que seguia para o Aeroporto Internacional Tom Jobim foi baleado na cabeça, na manhã de sábado, ao entrar por engano em uma favela às margens da Linha Amarela, uma das principais vias expressas da cidade.

Gil Augusto Gomes Barbosa, de 53 anos, está internado em estado grave. O catador de latas Josias Tenório da Silva, que passava a pé pela via expressa, foi atingido por uma bala perdida nas nádegas. Ele passa bem.

Segundo a Polícia Civil, Barbosa estava indo buscar sua mulher no Aeroporto Tom Jobim, na Ilha do Governador, zona norte, quando recebeu uma ligação dela avisando que já estava num táxi para voltar para casa, na Barra da Tijuca, zona oeste. O engenheiro decidiu pegar um retorno e entrou por engano na Favela Vila do João, onde foi atingido por um tiro, supostamente efetuado por traficantes.

O projétil que atingiu Barbosa entrou pelo vidro traseiro esquerdo do carro, que tinha película escura. O engenheiro foi levado à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Vila do João e depois, transferido para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, zona norte. O catador foi para um hospital particular em Olaria, na zona norte.

Formado por 15 favelas cujo controle territorial é dividido por duas facções de tráfico de drogas e por uma milícia, o Complexo da Maré tem 130 mil moradores e é uma das regiões mais perigosas do Rio. A Maré deve ser a próxima região ocupada pelas forças de segurança para instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Outro caso. Na madrugada de 19 de maio, o assistente de direção da TV Globo Thomaz Cividanes, de 25 anos, dirigia um carro blindado, com placa de São Paulo, quando entrou por engano no Morro do Dezoito, no bairro de Água Santa, zona norte do Rio, e também foi atacado a tiros por traficantes. Apesar da blindagem, ele foi ferido na perna por uma bala que conseguiu atravessar a porta.

A manifestação pela paz realizada ontem, em frente ao Colégio Rainha da Paz, na zona oeste, reuniu, entre as cerca de 500 pessoas, um casal afetado na semana passada por duas tragédias.

Na manhã da segunda-feira passada, a fonoaudióloga do Colégio Nossa Senhora de Sion Regiana Rodrigues Coelho, de 37 anos, soube da morte de Eduardo Paiva, funcionário da escola atingido com um tiro na cabeça durante assalto em Higienópolis. À tarde, chegou a informação de que Alexandre Gaddy - dentista que teve 50% do corpo queimado por assaltantes em São José dos Campos - havia morrido. Gaddy era amigo de infância do marido de Regiana, Ulisses de Mello, de 41 anos.

"Tinha dúvidas se viria ou não. Sinceramente, não acho que o protesto tenha algum efeito prático, mas não podemos deixar de fazê-lo", diz Regiane. Mello e Gaddy estudaram no Rainha da Paz e, mesmo com a ida do dentista para o interior, a amizade resistiu. "Os dois eram como irmãos. Uma vez por mês, combinávamos uma visita."

Uma semana antes do assalto, Gaddy veio à capital para uma reunião familiar e convidou o casal. O churrasco serviu como uma espécie de despedida. A fonoaudióloga conta que os crimes mudaram a rotina do casal. "Nossa vida social não é a mesma. Temos recusado convites para sair de casa, e a nossa sensação de insegurança aumentou muito."

Primeiro lugar em número absoluto de prisões por mandado na capital de São Paulo nos quatro primeiros meses do ano, o 97.º Distrito Policial (Americanópolis) levou 65 pessoas à cadeia. "Você está vendo essa mesa aí, é tudo de interceptação telefônica", diz o delegado Rubens Barazal, em seu gabinete, apontando para uma pilha de investigações das últimas semanas.

"Não adianta eu pegar um. Ele vem, paga a fiança e vai embora. O que temos de focar são as quadrilhas, isso que propicia um grande número de prisões. Um ladrão é levado à delegacia, paga uma fiança de R$ 600 e vai para rua. Só que o seu prejuízo é de R$ 20 mil, R$ 30 mil", diz Barazal. Isso ocorre porque crimes contra o patrimônio com penas pequenas, como o furto, não geram mandados de prisão no inquérito. Segundo o delegado, se a investigação estabelece conexão com vários delitos de um grupo criminoso, as penas aumentam e a Justiça autoriza a prisão dos suspeitos.

Não basta, porém, convencer o juiz da necessidade de prisão. É preciso ter informações sobre o suspeito. "Depois do deferimento da prisão, não vou ficar com um papel na mão." Barazal usa técnicas que vão da observação em campo ao cruzamento de informações em banco de dados. Em fevereiro, ele conseguiu a condenação de 22 homens de uma quadrilha que roubava carros na zona sul. Um deles recebeu pena de 42 anos de prisão. "Até recebemos um elogiozinho do juiz na sentença."

No índice de prisões por mandado em crimes violentos feito pelo Estado, o 2.º Distrito Policial (Bom Retiro) ficou em primeiro lugar. Foi lá que a polícia encontrou em 24 horas o homem que estuprou uma psicóloga na Marginal do Tietê, em maio. "Tudo depende da criminalidade de cada distrito. Aqui, por ser uma região que tem comércio, como a Rua José Paulino, temos muitos crimes contra o patrimônio", diz o delegado titular Eduardo Castanheira.

Ele conta que preza por ter uma equipe de primeira. "Os funcionários que não se adequam à nossa maneira de trabalhar, a gente busca trocar e formar uma equipe que tenha intenção de trabalhar nos moldes que achamos melhor. Venho tendo sucesso com relação a isso." / L.B.F.

Três delegacias de São Paulo zeraram quando o assunto é prisão por mandado judicial. Os distritos são da Freguesia do Ó (28.º), na zona norte, de Campo Grande (99.º), zona sul, e da Vila Matilde (21.º), na zona leste.

No bairro da região leste, o problema são roubos de carro. E não é de hoje. Nos últimos dez anos, a aposentada Terezinha Oliveira, de 72 anos, contabiliza três parentes que tiveram o carro roubado em frente à casa dela. O endereço de Terezinha é visado. Na região, a Rua Dona Escolástica Melchert é conhecida como "a rua dos roubos de carro". "Faz um pouco mais de um mês, um ladrão encostou na minha filha que estava chegando e roubou o carro dela."

Não é preciso andar muito para encontrar mais vítimas. A uma quadra da casa dela, o analista de sistemas Elias Aparecido Soares, de 46 anos, teve o Siena levado por um bandido. "Fui à delegacia e senti que a polícia não foi atrás do cara. Na mesma semana, teve outros casos na rua. É uma quadrilha agindo."

O aposentado Sérgio Roberto de Souza, de 50 anos, reclama do atendimento no distrito da área. "Quando você vai lá registrar uma ocorrência, mandam fazer tudo na internet. No batalhão da PM, ali do lado, o pessoal resolve na hora."

O delegado titular do distrito, Mario Moretti Filho, justifica a falta de prisões por mandado citando a negativa dos juízes aos pedidos. De acordo com ele, também há vários casos de investigação que resultam em prisões em flagrante.

O delegado titular do 99.º DP, Valter Bossoli, desconhecia que a delegacia estava registrada com nenhuma prisão por mandado nas estatísticas. "O mandado é expedido para ser cumprido na área que a pessoa mora e a nossa região tem uma boa vizinhança", afirma o delegado, que faz cobertura de uma área que inclui os shoppings SP Market e Interlagos, o santuário do padre Marcelo Rossi e uma faculdade do Senac.

Novo endereço. Segundo o chefe dos investigadores do DP, Júlio César Fenze, houve três mandados cumpridos não incluídos nos dados da secretaria: um em março e dois em abril. Apenas um desses presos foi conduzido por policiais civis - um homem acusado de pedofilia. "Em muitos mandados que chegam para a gente, a pessoa já não mora no endereço", diz Fenze, diante de sete pedidos de prisão não cumpridos que serão devolvidos para a Justiça.

Na Freguesia do Ó, moradores se queixam do número de assaltos a pedestres. Comerciantes da Avenida Itaberaba, a mesma do 28.º DP, afirmam que o perigo é ficar de noite esperando no ponto de ônibus.

O delegado Nicola Romanini nega que o 28.º DP tenha índice zero de prisão. De acordo com ele, pelo menos três homens foram presos por mandado este ano. Um dos casos, segundo ele, foi o de um homem que tentou matar outro dentro de um hospital. /ARTUR RODRIGUES E LUCIANO BOTTINI FILHO

Pelo menos sete homens armados com fuzis fizeram ontem um arrastão na Avenida das Américas, na altura do bairro de Guaratiba, zona oeste do Rio. O local fica perto do Campus Fidei (Campo da Fé), onde serão realizadas, em 27 e 28 de julho, a vigília e a missa de encerramento da Jornada Mundial da Juventude. Os eventos terão a presença do papa Francisco. Testemunhas disseram que os ladrões utilizaram três carros para fechar a via. Ninguém havia sido preso até o começo da noite de ontem. / M.G.

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