Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

‘Não saí por baixo nem dei a volta por cima’

Ex-secretário suspeito de ligação com a Máfia do ISS, vereador é o indicado pelo PT para presidir a Câmara Municipal

Entrevista com

Antonio Donato

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

05 Dezembro 2014 | 03h00

SÃO PAULO - Um ano depois de deixar o cargo de secretário de Governo de Fernando Haddad (PT) acusado de receber dinheiro da Máfia do Imposto sobre Serviços (ISS), o vereador Antonio Donato (PT) foi confirmado nesta quinta-feira, 4, como candidato de seu partido à Presidência da Câmara Municipal em 2015. Até aqui, ele é candidato único da Casa ao cargo. A eleição será no dia 15. 

Na tarde desta quinta, após a indicação, parlamentares fizeram fila na porta de seu gabinete para negociar a composição da nova Mesa Diretora no ano que vem. Na mesma hora, a votação do Orçamento era adiada pela segunda vez, por falta de quórum. Ele falou com o Estado pouco antes de atender os colegas. 

O senhor saiu da Prefeitura após uma série de acusações que ainda não foram comprovadas e continua ficha limpa. Sua saída não foi precipitada? 

Não. Vejo tudo o que passou com naturalidade, dentro do que é possível ver. A política tem suas contingências. Naquele momento, achei melhor sair para ter meu espaço de defesa mais tranquilo na Câmara e me colocar à disposição dos órgãos de controle, como me coloquei. Acho que foi correto. Nesse momento, a circunstância, a conjuntura e os colegas me colocaram com essa tarefa. Nem considero que saí por baixo do governo nem que estou dando uma volta por cima. É um processo político natural.

Até há poucos dias, o senhor negava que seria candidato à Presidência. O que mudou? 

Na política, você é mais escolhido do que escolhe. Companheiros da bancada e colegas da Casa falaram que meu nome poderia ser um ponto de equilíbrio. Refleti bastante e resolvi aceitar a tarefa.

O mandato atual foi desequilibrado? 

Não, estou avaliando o futuro, não o passado. A gestão teve momentos importantes, como a aprovação do Plano Diretor e a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Sabesp, que acabou assumindo um papel que seria da Assembleia. 

O que deve mudar na Câmara?

Trabalho para que haja proporcionalidade, que cada bancada tenha seu espaço de acordo com sua força. Acho importante que se faça um esforço institucional de sinalizar uma proximidade maior com o cidadão. 

Como fazer isso?

Propomos uma sessão por semana em cada subprefeitura. Ao longo de 32 semanas, teremos a Câmara nos bairros, reunidos com conselhos participativos, com entidades e cidadãos de cada região. Vamos ter um debate grande da Lei de Uso e Ocupação do Solo, que é o principal desafio do ano que vem. Temos uma experiência positiva do Plano Diretor. O projeto do Executivo, que já era bom, foi muito melhorado na Casa. Uma última questão estrutural é que a Câmara Municipal é a Câmara da principal cidade do País. Acho que a gente tem de sintonizar esse momento de debate nacional. Imagino que a Casa tem de participar das grandes discussões. A Casa tem de organizar institucionalmente um grande processo para fomentar o debate da reforma política, com todas as forças políticas que estão representadas na Casa, com todas as propostas, e criando densidade nesse debate, para ajudar a costurar consensos e demarcar as diferenças. 

A gestão Haddad foi alvo de muitas críticas de vereadores por falta de negociação neste ano. Como deve ser a relação entre o Executivo e a Câmara na sua gestão?

Pelo Executivo, não posso falar. Meu papel enquanto presidente da Câmara deve ser o de harmonizar as relações entre Executivo e Legislativo, sempre mantendo a autonomia do Legislativo. 

Vereadores de oposição fizeram um manifesto com críticas e reivindicações de mudanças na Casa. O que o senhor pode dizer sobre isso?

Não concordo com todos os termos dele, mas acho uma preocupação real com o funcionamento que a Câmara tem de ter. Isso não é uma questão de vontade, é de condições políticas. Então, temos de trabalhar para que haja essas condições. Não é um processo só da Mesa Diretora. É das bancadas e do Executivo. Então, temos de trabalhar o ambiente para a Câmara melhorar. 

O senhor concorda com a avaliação (feita pelo prefeito Haddad à TV Estadão) de que a Câmara não votou nem aprovou muitos projetos próprios?

É uma discussão mais profunda. Em todos os parlamentos do mundo, a pauta é do Executivo. Tem estudos e estudos sobre isso. O que a Câmara tem de ter é uma postura de melhorar os projetos, criticá-los, e isso tem tido.

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