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'Não quero indenização. Queria a minha filha', lamenta o pai de menina baleada

Bruno Boghossian - O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2010 | 00h 00

Adolescente de 14 anos foi morta com um tiro no peito na quarta-feira; veja mais depoimentos

RIO - Sob o barulho do tiroteio entre policiais e traficantes na Vila Cruzeiro, foi enterrado ontem à tarde o corpo da estudante Rosângela Barbosa Alves, de 14 anos, morta com um tiro no peito durante o confronto de quarta-feira na favela. Cerca de 25 pessoas foram ao Cemitério de Inhaúma acompanhar o velório e o enterro.

"A dor é muito forte. Acho que ainda não caiu a ficha de que perdi minha filha. Era uma garota pacata. É preciso que as pessoas entendam que a favela não tem só bandido, tem muita gente boa", desabafou o pai da menina, Roberto Alves.

A menina estava perto da janela de casa quando foi atingida. Segundo o pai, o tiro teria partido de policiais. "Eu quero justiça. Não quero indenização do governo. Queria era a vida da minha filha", lamentou. Durante o velório e o enterro, a mãe da menina, Tereza Cristina Cesar Barbosa, teve de ser amparada. Ela e Roberto têm outros cinco filhos. Um deles, de 8 anos, também estava em casa e foi atingido de raspão na barriga."Eu quase perdi dois filhos. Criar sua família numa situação como essa é muito difícil. Vou fazer de tudo para sair de lá."

 

Alves e a família disseram estar acostumados com trocas de tiros na Vila Cruzeiro, mas nunca tinham sofrido as consequências da violência antes.

 

"Ele está vivo, é um milagre"

O taxista Lídio Júnior, cunhado do motorista de ônibus Reginaldo Dias Peixoto, que foi baleado na cabeça ontem de madrugada quando dirigia ônibus fretado pela Petrobrás, na Avenida Brasil, resumiu o sentimento da população: "Eu fico aliviado porque meu cunhado está vivo. É um milagre. Mas estou revoltado com o governo, que deixou o Rio chegar a esta situação. Essas UPPs deveriam ter sido feitas há 15 anos." Reginaldo Dias Peixoto não corre risco de morte.

 

O servente de obra José Pereira, morador da Caixa D"Água, favela do Complexo do Alemão, levou um tiro no pé esquerdo quando chegava em casa, ontem, por volta das 11 horas. "Não sei quem atirou. Se foi a polícia, foi sacanagem. Porque eles sabem quem é quem e viram que eu não sou bandido." Ele foi atendido no Hospital Getúlio Vargas, e passou quatro horas sentado na porta do hospital - não tinha como chegar em casa por conta do tiroteio. (Pedro Dantas)

 

"O porteiro me avisou do fogo"

Dois anos após perder um Palio Adventure em um assalto, o empresário Marcondes José Valois, de 45 anos, perdeu para criminosos na madrugada de ontem seu Clio Sedan 2005 que, comprado há uma semana, não estava segurado.

 

O veículo foi queimado por volta da 1 hora na Rua Jornalista Orlando Dantas, no Botafogo, zona sul do Rio, onde Valois mora e tem sua produtora de eventos. "Estava deitado quando ouvi duas explosões. Da janela vi uma movimentação de policiais. Pelo interfone, o porteiro me falou que um carro estava pegando fogo e parecia ser o meu. E era."

 

Um morador de rua descreveu à polícia os jovens que realizaram o ataque. Wellington Pereira da Silva, de 21 anos, e Fernando Buecker dos Santos, de 25, foram presos na Praia de Botafogo, a alguns quarteirões de onde o carro foi incendiado. Levavam uma mochila com roupas e um pacote de fósforos. E disseram ter agido sob ordens de chefes do Comando Vermelho. (Marcelo Auler)

 

"Queremos o direito de enterrá-lo"

Se para a maior parte dos cariocas as intermináveis cenas de violência - seja a da fuga dos bandidos armados da Vila Cruzeiro ou a do incêndio de veículos nas ruas - são chocantes, para os que vivem de perto a intensidade dos ataques e da reação policial, a situação é de desespero.

 

Na Vila Cruzeiro, os moradores, muitos forçados a abandonar suas casas com medo dos tiroteios, colecionam histórias tristes.

 

A família do garçom Waldomiro Carlota, de 43 anos, morto com um tiro dentro de casa na noite da quarta-feira, só conseguiu que o corpo fosse retirado da residência no fim da tarde de ontem. Num primeiro momento, o medo de sair de casa impediu os parentes de pedir ajuda.

 

"A família ficou desesperada. Mas acabou indo à delegacia, ao batalhão (da Polícia Militar), à Defesa Civil. E ninguém tinha coragem de ir buscar o corpo. A família queria o direito de enterrá-lo", contou um amigo. (Gabriela Moreira)

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