'Não havia projetos como esse no Brasil'

Responsável pelo projeto da Praça Memorial 17 de Julho conta que ficou muito emocionado com a reação das famílias

Entrevista com

JÚLIA FERNANDES, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2012 | 03h06

Na terça-feira passada, 17 de julho, o desastre do voo JJ 3054 da TAM, no qual um do Airbus A320 se chocou contra um prédio da própria companhia na Avenida Washington Luiz, perto do Aeroporto de Congonhas, na zona sul, fez cinco anos. Mas, mais do que tristeza, o dia foi marcado pela celebração da memória das 199 vítimas do acidente, durante a cerimônia de inauguração da Praça Memorial 17 de Julho, que reuniu mais de 300 familiares e amigos.

Com área de 8.318 m², o memorial, que tem como objetivo ser um ponto de lazer e convivência para a população, é assinado pelo arquiteto paulistano Marcos Cartum. A seguir, ele fala sobre as obras que começaram em dezembro de 2011 e custaram cerca de R$ 3,6 milhões e da emoção de fazer o projeto.

Como esse projeto foi parar nas suas mãos?

Eu trabalho na Secretaria Municipal da Cultura, na área de desenvolvimento de projetos. Tenho muito interesse pela ideia de construir espaços públicos de qualidade. Por isso e por causa de trabalhos que eu desenvolvi, como o da Praça das Artes, que será inaugurada no centro da cidade no fim do ano, recebi um convite do prefeito para realizar esse projeto. O primeiro estudo foi apresentado apenas uma semana depois do acidente e a primeira versão era bem diferente da que acabou sendo feita. O processo foi acontecendo ao longo desses cinco anos até chegar à concepção atual.

De onde veio sua inspiração?

Eu conheço algumas referências de memoriais com a mesma proposta, mas não havia projetos como esse no Brasil. Ao buscar inspiração, vi que esse caso tem características muito especiais. O desafio era conciliar ao mesmo tempo uma memória difícil com um espaço agradável para todos na cidade, não só os familiares das vítimas. A ideia se desenvolveu buscando equilibrar essas duas funções opostas. Tive essa preocupação desde o início, porque não é um mausoléu, mas tinha de ter uma marca muito forte de homenagem e lembrança.

Quais foram os aspectos negativos da localização da praça?

A praça está localizada em uma avenida movimentada e barulhenta, mas o resultado é um espaço que não dá vontade de sair, por causa do próprio desenho, onde conseguimos deixar a praça recortada em relação à avenida, mais rebaixada e, assim, protegida. Em relação aos aviões que passam o tempo todo, foi interessante como o problema trabalhou a favor do espaço, porque você os acaba observando de forma especial, é uma atração. Acabou que tudo ficou muito acolhedor, o muro que cerca a praça abraça você, é ideal para passear com crianças e seguro.

Quais são os detalhes mais marcantes do projeto?

Um elemento-chave é uma grande árvore. No levantamento topográfico encontramos uma amoreira debaixo dos escombros do acidente em uma localização muito interessante, quase central, e eu a transformei em uma escultura viva. É um marco simbólico muito forte em relação à concepção do projeto de valorizar a vida. E os familiares demonstraram um grande carinho por ela. Em torno dela, há uma esplanada circular com 199 pontos de luz e um espelho d'água com o nome de cada uma das vítimas, que forma um conjunto único de iluminação. O ideal é visitar a praça tanto de dia como de noite, em cada momento há uma característica especial.

Qual é o sentimento de ter sido responsável por esse projeto?

Já me deixava muito empolgado a possibilidade de criar novos espaços públicos de qualidade, algo de que nossa cidade é muito carente. Criar esse memorial foi muito gratificante pra mim, é um sentimento muito positivo. Fiquei muito emocionado ao receber o carinho e a homenagem dos familiares, que elogiaram o projeto e gostaram do resultado.

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