'Na verdade, me sentia com superpoderes'

PM afirma que colegas da corporação perguntavam e cobravam se ele havia matado alguém; 'fui buscar prestígio'

O Estado de S.Paulo

22 Julho 2012 | 03h03

Por que foi condenado?

Fui condenado pela prática dos crimes de sequestro, homicídio e ocultação de cadáver. Cometi o delito em companhia de dois policiais civis. Abordamos um jovem, numa noite chuvosa, na região central de São Paulo, perto de onde ele morava. Levamos para um matagal distante. Cada civil efetuou um disparo de arma de fogo, eu efetuei dois, um na cabeça e outro nas costas. Morava na área central de São Paulo e no bairro havia um grupo de jovens que praticava roubos. A situação era revoltante. Os vizinhos não tinham mais tranquilidade. Em três ou quatro ocasiões, abordei, com um amigo civil, os jovens. Nessas ocasiões recuperamos os produtos do roubo e restituímos aos donos, repreendemos todos eles e liberamos. Na verdade, me sentia com superpoderes. Raciocinava da seguinte maneira: "Sou policial, tenho arma de fogo, tenho poder e, como eles continuaram a praticar os delitos na vizinhança, só restava tomar a decisão de limpar o bairro, porque daí eles não iam perturbar mais".

O que aconteceu em seguida?

Após efetuar os disparos e com a certeza de que ele havia morrido, entramos no veículo e retornamos para nossas residências. No dia seguinte, as preocupações começaram. Havia uma testemunha que avistou a abordagem e conversou com a mãe do jovem, que foi ao distrito policial registrar a ocorrência. Fui conduzido para a sede da Corregedoria da Polícia Militar e depois para o Presídio Romão Gomes. Fui condenado a 15 anos de reclusão.

Por que achava que tinha superpoder?

Primeiro, pelo fato de andar armado. Segundo, pelo fato de ser detentor do poder de polícia. Achava que, por causa disso, poderia fazer o que bem quisesse. Fazia blitz policial nas horas de folga. Terceiro, porque entendia que devia matar alguém para ser aprovado no meio policial. Algumas vezes, colegas de farda perguntavam se já havia matado alguém. Me sentia cobrado e, para ser respeitado pelo grupo, achei que deveria agir dessa maneira. Praticar homicídio seria uma maneira de sobressair no grupo, de ter prestígio e de ter fama. Fui buscar esse prestígio. Pratiquei o primeiro homicídio, fui preso. Caso contrário, teria continuado e teria praticado outros.

Como foi a sua formação?

Fiz o Curso de Formação de Soldados. Nele foi mostrada uma realidade bem diferente da que nos deparamos quando vamos trabalhar numa unidade operacional. Lá nenhum instrutor fez menção aos problemas que íamos ver após a formatura, sobre qual seria a realidade do cotidiano policial.

Pela sua percepção, o que deve mudar na formação?

O curso de formação deve focar na realidade da atividade policial. Naquilo que realmente acontece. Nunca nenhum instrutor citou casos que ocorreram na vida real e poderiam servir de exemplo, como um alerta. Deve-se também trabalhar com a experiência depois de formado, nos batalhões, mencionando exemplos de fatos que ocorreram em outras unidades. Isso comigo nunca aconteceu. Na verdade, o que ocorre é o seguinte: o Estado te recruta, te dá formação, te dá uma arma, te dá superpoderes, te solta na rua e pronto!

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