'Mudança do clima trará inquietação a todo o mundo'

Secretária da ONU, que veio ao Brasil em meio aos protestos, diz que demora em lidar com o clima vai aumentar os desafios

Entrevista com

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2013 | 02h03

A costa-riquenha Christiana Figueres, secretária executiva da Convenção do Clima da ONU, esteve no Brasil na semana passada para discutir com o governo seu papel nas negociações internacionais que tentam fechar um acordo até 2015 para reduzir as emissões de gases-estufa. Em entrevista ao Estado, falou sobre as negociações.

Nos últimos anos, todas as conferências do clima da ONU terminam com uma sensação de fracasso. Os países ainda não parecem estar decididos a fazer reduções mais expressivas das emissões. Como ficar abaixo dos 2°C de aumento da temperatura?

Muitos estudos têm dito exatamente o mesmo: se seguirmos no passo em que estamos, não vamos ficar em 2°C (aumento que se considera limite para evitar cenários mais catastróficos). Vamos chegar a 3,6°C ou 4°C. Mas esse não é o final da história. A verdade é que temos as tecnologias e o capital para mudar a projeção atual das emissões de gases. Podemos ficar nos 2°C se houver vontade política coletiva. Os países caminham na direção correta, mas não na velocidade necessária. Mais recentemente, os governos têm se dado conta de que sozinhos não vão solucionar isso e têm aberto espaço para iniciativas de todos que possam contribuir como uma solução. Há projetos impressionantes de mitigação e adaptação, mais ousados do que tem se logrado em nível nacional. Isso pode formar um círculo virtuoso de abertura de espaço político para que os governos cheguem ao acordo.

Que papel a senhora espera que o Brasil desempenhe?

Acho que o País pode ter vários papéis. O primeiro, claro, é o de baixar suas emissões mais do que já fez. O Brasil já fez um grande esforço, sobretudo em reverter o desmatamento. Mas há outros setores que o Brasil tem potencial de reduzir suas emissões. Assim como todos os outros países do mundo. Nenhum deles está baixando todas as emissões que pode. Ao fazer esse esforço, o Brasil pode servir como modelo para emergentes e exportar a capacidade e a tecnologia com a qual tem baixado suas emissões. Nas negociações pode construir uma ponte entre os países industrializados, que têm responsabilidade histórica pela alta concentração de CO2, e os em desenvolvimento, que têm responsabilidade futura. O Brasil está no meio desses dois universos.

A senhora chegou a Brasília bem no meio de calorosos protestos causados em boa parte por insatisfação com o governo. Acredita que a falta de ações mais ousadas de todos os países contra as mudanças climáticas podem acabar provocando, um dia, este tipo de mobilização?

Acho que, se o mundo não enfrentar a mudança climática em tempo hábil, os tipos de desafios subjacentes à inquietação que estamos vendo no Brasil serão exacerbados em cada país. Ao mesmo tempo, é importante notar que algumas das medidas que devem ser tomadas para enfrentar as mudanças climáticas, como um transporte mais sustentável, também podem ajudar a melhorar a qualidade de vida, especialmente nas grandes cidades em todo o mundo.

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