Movimento que parou SP quer 'causar'

Grupo se recusa a falar com Haddad e aposta no conflito para reduzir tarifas de ônibus na capital

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2013 | 02h02

Eles se definem como um coletivo socialista, mas também simpatizam com os anarquistas. Afirmam que são apartidários, não respondem a chefes ou lideranças. Seguidos por bandos de jovens cheios de estilo nas roupas e cabelos, o Movimento Passe Livre (MPL) conseguiu "causar" nas ruas de São Paulo ao apostar na publicidade que o caos no trânsito e o confronto com a Polícia Militar podem garantir ao grupo.

"A gente tem bons contatos na Prefeitura. O PT Jovem nos apoiava nos protestos em 2011, assim como vereadores que eram de oposição e hoje viraram governo. Mas não queremos sentar para negociar. A campanha do prefeito (Fernando Haddad) foi financiada por empresas de transportes. Foi assim (nas ruas) que conseguimos diminuir tarifas em Porto Alegre, Florianópolis e Teresina", diz um dos porta-vozes do MPL, o estudante Marcelo, de 19 anos, estudante de Filosofia da USP.

Na tarde de sexta-feira, antes dos protestos na Faria Lima, ele explicou que não queria revelar seu sobrenome por temer processos. O Metrô havia acabado de anunciar que pretendia ser ressarcido em R$ 73 mil por causa da quebradeira no centro e na Avenida Paulista. Como o movimento não é pessoa jurídica, havia o risco de que as ações pudessem cair nas costas dos integrantes.

As redes sociais potencializam a capacidade de persuasão do grupo, juntamente com visitas a colégios e universidades. Apesar de bandeiras do PSOL e do PSTU estarem sempre presentes nos protestos, os integrantes do MPL tentam se afastar dos vínculos com esses partidos, considerados apenas como parceiros do movimento.

A falta de hierarquias, contudo, acaba expondo o movimento a riscos. Na quinta-feira, no protesto que parou a Paulista, os planos iniciais eram de seguir pela Avenida 23 de Maio até o Parque D. Pedro II, no centro. Só que a PM interveio e dividiu o grupo. "Parte das pessoas foi pela 9 de Julho. Soubemos depois que a Paulista estava sendo bloqueada", diz Marcelo. Para ele, os atos de vandalismo foram efeito da 'agressão da PM'. "Não somos pacifistas. Como a polícia bateu, houve excesso."

Direitos Civis. A cientista política Monika Dowbor, do Centro de Análise e Planejamento (Cebrap), compara a estratégia atual dos grupos à dos movimentos de direitos civis americanos nos anos 1960. "Na época, as lideranças escolheram as cidades mais violentas e racistas para protestar, para que houvesse reação e seus militantes saíssem como heróis", diz.

Segundo Monika, os protestos antigoverno no Brasil nos anos 70 eram violentos por causa da impossibilidade de diálogo com as autoridades. A situação mudou nos anos 80, quando o Estado abriu espaço para integrantes desses grupos em conselhos e cargos públicos. Ela acha que o embate atual pode ser uma estratégia capaz de diferenciar o grupo. "Se eles se sentassem para negociar, seriam mais um grupo recebido pelo prefeito. Hoje são poucos os grupos que apostam no conflito, caso do Movimento dos Sem-Terra. É uma forma de se diferenciar politicamente."

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