Bruno Pires/Estadão
Bruno Pires/Estadão

Moradores de Santa Cecília se mobilizam contra centro que atenderá população de rua

Eles temem o aumento da sujeira e da violência na Rua Imaculada Conceição; reponsável pelo centro compara reação a movimento contra metrô em Higienópolis

Breno Pires, O Estado de S. Paulo

29 Maio 2013 | 11h36

SÃO PAULO - Uma creche, uma escola infantil, uma escola de nível fundamental e médio, um bar, um restaurante tradicional e um mercadinho são os principais estabelecimentos da Rua Imaculada Conceição, com apenas 200 metros de extensão, no bairro de Santa Cecília, centro de São Paulo. Mas é a casa de fachada laranja, número 44, que atrai os olhares da vizinhança. O local sediará, a partir de junho, um centro de atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade social, incluindo moradores de rua, o que tem preocupado quem vive ou trabalha por perto.

Moradores e comerciantes da região fazem um abaixo-assinado para que não seja instalada no local a nova unidade do Centro Social e Promocional Paulo VI – que é ligado à Igreja Imaculado Coração de Maria, da Congregação dos Missionários Claretianos, e atualmente funciona na Rua Jaguaribe, também em Santa Cecília.

O vice-presidente do centro, Francisco Arcangelo Damito, no entanto, defende o trabalho de caridade e diz que a reação da comunidade pode ser comparada à campanha contra a construção de uma estação do Metrô em Higienópolis em 2011 - o governo estadual cedeu a um abaixo-assinado da Associação Defenda Higienópolis e mudou o local das obras. "Eles (moradores) estão fazendo o que o pessoal de Higienópolis fez com o metrô", diz Damito.

O temor da vizinhança é que a população atendida se fixe nas calçadas e traga sujeira, insegurança e uso de drogas. Esse é o cenário que se pode observar a meio quilômetro de distância, na Rua General Julio Marcondes Salgado, na frente do Espaço de Convivência (Tenda) Santa Cecília - gerenciado pela Organização Social Sociedade Amiga e Esportiva do Jardim Copacabana, em convênio com a Prefeitura -, onde podem ser encontrados moradores de rua mesmo após o encerramento das atividades, às 22h.

 

Locais que atendem a moradores de rua. Clique nos pontos para mais informações

"A minha preocupação é com as crianças das escolas, a sujeira na rua e a segurança. Junto com os moradores de rua vêm os noias", afirma Lilian Sallum, que administra, junto com um irmão, o restaurante Esquina Grill do Fuad, que pertencia a seu pai, Fuad Sallum, morto em março.

Várias atas do abaixo-assinado estão disponíveis no local. Moradora de um condomínio na rua, Tereza Huete, de 70 anos, levou algumas para seus vizinhos de prédio. "Não quero que esse espaço venha para cá", disse.

As assinaturas estão sendo recolhidas para "evitar a instalação equivocada de espaço de atendimento à população em situação de rua no número 44 desta via (Imaculada Conceição), local ainda preservado e muito frequentado por famílias e crianças, evidentemente impróprio para sediar esse tipo de atividade".

O presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) de Santa Cecília, Fabio Fortes, a quem o abaixo-assinado será endereçado, também se posiciona contra a instalação do espaço. Ele aponta prejuízos ao comércio e constrangimento a moradores, citando a experiência na Marcondes Salgado. "O que estamos vendo é que as ONGs e entidades não promovem o ser humano, mas, sim, fazem a manutenção do ciclo da miséria, e ainda ganham para isso", afirma Fortes.

 

 

Ele não acredita que a situação será diferente na Imaculada Conceição. "Elas sempre vêm com argumento de que vão fazer um trabalho diferente e melhor. Mas a experiência dos últimos anos em nosso bairro tem demonstrado que recai sempre na condição de ficar acumulando pessoas nas suas portas."

A preocupação dos moradores de Santa Cecília é compartilhada pelo delegado do 77º DP (Santa Cecília), Wilson Roberto Zampieri, que na última semana comandou, na rua do Espaço de Convivência Santa Cecília e nos arredores, uma operação conjunta com a Polícia Militar e a Secretaria da Coordenação das Subprefeituras em que foram abordadas 85 pessoas - 90% delas tinham passagens pela polícia. Um homem foi preso perto do local com 37 pedras de crack.

 

 

"Aqui acaba atraindo traficantes, roubadores (sic). As pessoas que frequentam essas ONGs são pessoas que possuem antecedentes criminais e frequentam já para praticar crimes. A região em que pretendem instalar (o centro) vai ficar degradada como já está degradado aqui nos Campos Elísios. Estão querendo degradar até a Santa Cecília. Fica até difícil trabalhar", disse Zampieri.

Assistência. Um dos responsáveis pela administração do Centro Paulo VI, Francisco Damito diz que o trabalho realizado pela instituição religiosa não visa especificamente moradores de rua, ao contrário do espaço ligado à prefeitura, mas também os atende. Ele afirmou também que o trabalho realizado pelo centro é diferente do da prefeitura.

 

 

"Eles estão assustados por causa do centro que foi feito na Marcondes Salgado, mas aqui não tem nada disso", diz. Segundo ele, o centro fará doação de alimentos, remédios, roupas, calçados, cadeiras de rodas e muletas, oferecerá atendimento odontológico e um lanche diário na hora do almoço, como já é feito no espaço da Rua Jaguaribe. "Todo mundo gosta de feira desde que seja na porta do outro. O que fazer? Vamos deixar as pessoas com fome?", questiona Damito.

Com capacidade para até 300 pessoas, o Espaço de Convivência Santa Cecília, por sua vez, oferece banho e práticas como capoeira, violão, artesanato e informática. Ambos se propõem a encaminhar pessoas para atendimento relativo a saúde e documentação.

A Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, que paga à Organização Social Sociedade Amiga e Esportiva do Jardim Copacabana R$ 118 mil por mês para o trabalho no espaço, diz que esta e as outras tendas na cidade têm o papel de aproximar a pessoa em situação de rua do atendimento social. O órgão, no entanto, reconhece que busca outras formas da atender diretamente essa população, sem intermediários.

"Já está em estudo na pasta a implantação de cinco Centros Pop, que possuem atendimento diferenciado dos espaços, e têm gerência estatal. Acreditamos que sejam um trabalho mais eficiente de inserção da população em situação de rua na rede", diz a nota enviada pela assessoria de imprensa da secretaria.

Ao todo, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social tem 1.171 convênios com 379 organizações e repassa mensalmente R$ 53 milhões, com capacidade de atendimento de 220.542 pessoas. A região de Santa Cecília conta com 14 serviços socioassistenciais, segundo a secretaria - cinco Centros de Acolhida, três Centros de Acolhida Especiais, três Repúblicas, um Serviço de Atenção Urbana e dois Espaços de Convivência, contando com o da Marcondes Salgado.

Outros casos. O atendimento a moradores de rua também foi alvo de uma mobilização de moradores em Pinheiros, em outubro de 2011. Um abaixo-assinado com 1,2 mil nomes foi enviado ao Ministério Público Estadual para impedir que um albergue para esse público no bairro fosse transferido para uma área residencial mais nobre da Rua Cardeal Arcoverde. Na ocasião, o promotor Maurício Antonio Ribeiro Lopes indeferiu o pedido e comparou a iniciativa às tomadas na Alemanha nazista. A prefeitura não cedeu à pressão dos moradores e manteve o planejamento para transferir o Albergue Cor para o número 3.041 da Cardeal Arcoverde.

Já em maio de 2011, moradores de Higienópolis se mobilizaram contra a instalação de uma estação da Linha 6-Laranja do Metrô, que ficaria na Avenida Angélica e na Rua Sergipe. O abaixo-assinado dos moradores contra o metrô, organizado pela Associação Defenda Higienópolis, causou grande mobilização na internet, sobretudo pela declaração de uma moradora do bairro que disse que a estação poderia atrair "gente diferenciada".

Mais conteúdo sobre:
Santa Cecília morador de rua

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.