Moradores assumem ajuda a desabrigados

Borel dribla lentidão da resposta do governo e presta auxílio a pelo menos 40 famílias que perderam tudo

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2010 | 00h00

/ RIO

No Morro do Borel, na Tijuca, zona norte do Rio, os moradores não esperaram a ajuda do Estado para socorrer as 40 famílias que perderam tudo ou estão com as casas condenadas depois das chuvas. Eles organizaram ontem o recolhimento de doações e mutirões para salvar os pertences que restaram das casas ameaçadas por deslizamentos.

No Ciep Antoine Magarinos Torres Filho, as famílias se acomodavam nas salas transformadas em abrigos. "Não tenho parentes no morro e as casas dos amigos já estão lotadas com outros desabrigados. Minha casa está intacta, mas cheia de barro. Uma pedra logo acima parece que está solta e ameaça cair. Desde a madrugada de terça-feira eu não tenho casa", lamentou a vendedora Fernanda da Silva Nascimento, de 27 anos. Ela se acomodava em um pequeno cobertor com os filhos de 9, 6 e 3 anos.

Na segunda-feira, a enxurrada provocou o deslizamento de uma barreira no alto do morro. Seis casas foram destruídas e pelo menos 20 foram danificadas. Os primeiros socorros aos soterrados ficaram por conta dos moradores. Eles resgataram Marcele Barbosa, de 20 anos, grávida de cinco meses, e as filhas dela, Ana Luísa, de 2 anos, e Ana Marcele, de 6 meses, mas as crianças morreram. O enterro está marcado para hoje no Cemitério do Caju, na zona portuária.

Drama se repete. Na local da tragédia, conhecido entre os moradores como Feijão, 25 pessoas morreram após um deslizamento causado por uma enxurrada em 1988.

Depois das mortes, os governos iniciaram programas de reflorestamento e fizeram remoções. Com o passar do tempo, tudo foi abandonado. As ocupações irregulares voltaram e as árvores sumiram.

"Isto foi uma tragédia anunciada. Eu alertei alguns moradores que construíram naquela área", afirmou o morador Antônio Carlos da Silva Donato.

O Borel frequenta as páginas dos jornais por conta dos tiroteios entre policiais e traficantes. Atualmente, o morro é o mais cotado para receber a primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da zona norte da cidade. Nada disso é assunto entre os moradores pelos becos e vielas. A preocupação é com a reconstrução. "A gente constrói. Deus vai dar força para nós", disse a doméstica Vera Lúcia dos Santos Francelino, de 38 anos, que perdeu a casa que dividia com o marido e os quatro filhos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.