TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Morador dos Jardins vive 24 anos a mais do que o do Jardim Ângela, diz pesquisa

'Mapa da Desigualdade de 2017' listou melhores e piores distritos da capital paulista nas áreas de saúde, educação, cultura, mobilidade, segurança e habitação

Juliana Diógenes e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

24 Outubro 2017 | 10h41
Atualizado 25 Outubro 2017 | 00h35

SÃO PAULO - Na cidade de São Paulo, uma distância de 19 quilômetros separa os moradores que vivem mais daqueles que morrem mais cedo. Quem mora no Jardim Paulista, área nobre da zona sul, vive em média 24 anos a mais que um residente do Jardim Ângela, bairro periférico do extremo da mesma zona sul. Nos Jardins, um paulistano morre, em média, aos 79,4 anos. Já quem mora no Jardim Ângela vive até os 55,7.

 

A disparidade foi revelada no Mapa da Desigualdade de 2017, estudo da Rede Nossa São Paulo apresentado nesta terça-feira, 24. O levantamento mostra diferenças de acordo com cada distrito da capital entre 38 indicadores.

O “desigualtômetro” tem dados atualizados até 2016. As taxas foram calculadas a partir de informações econômicas e sociais fornecidas pela Prefeitura e demais órgãos oficiais, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A partir delas, a entidade listou os melhores e piores distritos da cidade sob o ponto de vista de saúde, educação, cultura, mobilidade, segurança e habitação.

Para Américo Sampaio, gestor de projetos da Rede Nossa São Paulo, o destaque do levantamento deste ano é o indicador que trata da idade média para morre”. “É inadmissível viver em uma cidade com quase 25 anos de diferença de vida. Não tem cidade que possa ser saudável, viável e razoável de se viver com essa distância toda.” 

Segundo ele, o que puxa para baixo a média de idade dos moradores do Jardim Ângela é a morte precoce de jovens na região. “Essa região tem um índice de mortalidade infantil maior do que nos Jardins. Isso joga a média para baixo”, afirma. Além disso, de acordo com ele, há um “ genocídio da juventude negra”, vítima da violência urbana.

Segundo o economista e diretor da FGV Social, centro da Fundação Getúlio Vargas para o desenvolvimento inclusivo, Marcelo Néri, fatores relacionados à saúde e à violência urbana afetam a diferença entre as idades de morte nos distritos. 

“Dados de expectativa de vida, que avaliam faixas etárias de modo geral, dizem que, no Brasil. a cada três anos, a expectativa de vida sobe um (ano). É a média nacional. Significa dizer que entre o Jardim Ângela e o Jardim Paulista há 72 anos de diferença. Ou seja, serão necessários 72 anos para o Jardim Ângela chegar ao nível do Jardim Paulista. 72 anos é uma vida inteira. Uma vida do Jardim Paulista, não no Jardim Ângela.”

Outro destaque, para Américo Sampaio, é a gravidez na adolescência. O levantamento revelou que o porcentual de adolescentes grávidas em Marsilac, no extremo sul da capital, é 26 vezes maior do que em Moema, bairro nobre da zona sul. 

 

Vida dura

Moradora do Jardim Ângela há 20 anos, a vendedora ambulante Lindaci Lima dos Santos, de 37 anos, mantém um diálogo aberto com a filha Carolina, de 16 anos, para que não passe pela experiência de engravidar muito nova. “Sempre falo que o papaizinho só faz o bebezinho. E depois vai embora.” Para a ambulante, a baixa média de vida no bairro se deve à vida dura de muitos moradores. 

Notícias relacionadas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.