Moderno, mas sem riscos?

Neal Street, charmosa rua de Covent Garden, uma das áreas mais nobres do centro de Londres, oferece agora, ao lado de suas descoladas lojas de roupas, óculos, cosméticos e calçados, uma loja de e-cigarettes (cigarros eletrônicos), artefatos que dobraram as suas vendas no Reino Unido, têm provocado certa febre em alguns países da Europa, mas que ainda dividem a opinião de especialistas.

JAIRO BOUER, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2013 | 02h03

A nova loja (www.v-revolution.com) apela para um conceito de "moderno" e "contemporâneo" para tentar vender seus e-cigarettes e seus e-liquids. Outros fornecedores já vendem e distribuem esse tipo de produto na cidade, em versões mais baratas, há alguns anos. Mas será que os cigarros eletrônicos podem mesmo ajudar as pessoas que fumam?

Há cerca de um mês, aqui na capital britânica, cientistas e empresários se reuniram em uma conferência para discutir benefícios e riscos dos dispositivos. Muitos acreditam que, apesar de o líquido que vai no vaporizador (cigarro eletrônico) conter nicotina e outras substâncias potencialmente tóxicas, os riscos para a saúde do usuário seriam bem menores do que o uso de cigarro convencional. Eles defendem que o método poderia salvar a vida de milhões de fumantes. Outros são mais cautelosos e acham que ainda é cedo para garantir que não há problemas (posição endossada pela Organização Mundial da Saúde).

O fato é que ainda não há uma regulamentação específica para uso desse tipo de acessório. Ele poderia, em teoria, servir até como mais uma forma de reposição de nicotina para quem quer abandonar o cigarro (como os adesivos atuais vendidos nas farmácias), mas muitos fumantes podem migrar para o eletrônico e optar por não interromper o consumo de nicotina. Haverá riscos no futuro? Ainda não se sabe! Mais: será que o conceito moderno e descolado não pode acabar fazendo com que os jovens queiram experimentar o dispositivo, fiquem dependentes de nicotina e, depois, migrem para o cigarro (receio semelhante ao que se tem hoje com o narguilé)?

Parar de fumar está longe de ser uma missão fácil. Diariamente, milhões de pessoas no mundo todo prometem para si mesmas que vão largar o cigarro. Por conta própria, sem nenhuma forma de auxílio, estima-se que as chances sejam pequenas. De cada cem que tentam, uma ou duas vão conseguir.

Mas esse cenário nebuloso tem ganhado contornos mais animadores. Nos últimos anos, com o suporte de especialistas, reposição de nicotina e uso de remédios que atuam no sistema nervoso central e controlam a "fissura" provocada pela nicotina, as chances aumentaram em 20 a 30 vezes. O e-cigarette poderia entrar nesse rol de acessórios.

No Brasil, a Anvisa não autorizou a venda e uso do dispositivo, por não ter comprovações de que não exista riscos para a saúde. Mas muitas pessoas estão trazendo os seus do exterior ou comprando ilegalmente no País. Mesmo em concentrações bem menores dos que as que são encontradas em cigarros convencionais, a nicotina, os aromatizantes e outras substâncias poderiam ter efeitos tóxicos e até cancerígenos se usados com frequência.

Em Londres, não é preciso ir muito longe para ver as pessoas fumando seus eletrônicos em ambientes fechados, como restaurantes e bares. Fumantes estão tentando usar o artefato para "driblar" a abstinência da nicotina em voos, peças, filmes, festas e jantares. Só que eles também soltam um vapor que pode ter cheiro e incomodar quem está ao lado. A lei inglesa deixa brechas e os clientes e funcionários ficam confusos. No Brasil, em teoria, o uso dos eletrônicos também é vetado em ambientes fechados.

É PSIQUIATRA

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