Ministro recua e retira campanha de prostituta

Depois da reportagem do 'Estado', Padilha ainda exonerou o diretor do Departamento de DST; bancada evangélica cobrou explicações

LÍGIA FORMENTI /BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2013 | 02h03

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, recuou e mandou retirar toda a campanha que continha a peça "Eu sou feliz sendo prostituta" do site do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. Ele ainda exonerou o diretor do departamento, Dirceu Greco, que estava no cargo desde 2010. A decisão foi tomada três dias depois do início da divulgação de uma campanha para combater o preconceito contra profissionais do sexo e no dia seguinte ao Estado ter publicado reportagem sobre a campanha.

Veiculado nas redes sociais e elogiado por médicos e especialistas na prevenção de DST-Aids, o material provocou protestos entre a bancada evangélica. No Congresso, parlamentares pediram explicações.

A reação começou pela manhã, com Padilha anunciando a retirada da peça "Eu sou feliz sendo prostituta". Segundo ele, o material estava em teste e não deveria ter sido publicado. "Enquanto for ministro, uma peça como essa não fará parte da campanha." O material trazia a logomarca do governo federal, do SUS e do Ministério da Saúde. O ministro, no entanto, afirmou que a peça não se encaixava nas medidas de prevenção. À noite, Padilha mandou retirar todo material do site do DST-Aids. Em nota, o ministério afirmou que não houve custos de impressão ou veiculação.

É a terceira vez que o ministro, cotado como candidato do PT ao governo paulista, determina a retirada de um material após polêmica. Em março, o Estado revelou que a pasta, por determinação do Palácio do Planalto, havia mandado recolher um kit de prevenção de aids dirigido a adolescentes. O material abordava temas como homossexualidade, drogas e gravidez. Assim como fez ontem, Padilha justificou na época que a distribuição havia sido feita a sua revelia. O primeiro recuo ocorreu em 2012: diante da desaprovação da presidente Dilma Rousseff, um vídeo de carnaval trazendo um casal gay foi retirado.

Para o pesquisador do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), José Miguel Nieto Oliva, o recuo traduz uma ordem de moralidade que não tem a ver com estado laico. Para ele, pesquisas mostram que sem a valorização da autoestima não é possível combater a vulnerabilidade para o contágio da aids. "Logo, a frase faz muito sentido e diz, sim, respeito à saúde."

O presidente do Fórum de ONSs/Aids do Estado de São Paulo, Rodrigo Pinheiro, tem avaliação semelhante. Ele observa que campanhas dirigidas ao público mais vulnerável são o primeiro passo para a procura de serviços de saúde. "O que temos agora é a lei do silêncio. Algo que, claro, não vai trazer bons resultados." O professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Mário Scheffer, classificou a medida como "retrocesso histórico". Já para Beto de Jesus, da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, a retirada foi medida covarde e eleitoreira. "Ações importantes para proteger a população mais vulnerável à aids estão sendo colocadas de lado em nome de um projeto político. O ministro precisa saber que isso não dá voto. Só aumenta o risco da população."

Reação. Deputados da bancada evangélica usaram a Comissão de Direitos Humanos, presidida pelo pastor Marco Feliciano (PSC-SP), para criticar a campanha. "Esse governo tem uma capacidade de buscar uns temas que me assustam", disse o deputado João Campos (PSDB-GO). "A mulher não nasceu para ser prostituta, nasceu para ser mãe de família", completou Costa Ferreira (PSC-MA). Feliciano não se deteve sobre o tema, mas apoiou a iniciativa de Roberto Lucena (PV-SP) de pedir informações ao governo. / COLABORARAM OCIMARA BALMANT e EDUARDO BRESCIANI

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