Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Metade dos jovens de São Paulo gostaria de viver em outra cidade

Pesquisa da Rede Nossa São Paulo mostra também que crianças e adolescentes têm baixa sensação de pertencer a bairro onde moram

Felipe Resk e Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

23 Julho 2015 | 10h01

Atualizada às 21h16

O medo de assaltos e roubos atinge a maioria das crianças e adolescentes de São Paulo. Dados da pesquisa inédita IRBEM (Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município) Criança e Adolescente, da Rede Nossa São Paulo, indicam que 61% da população infantojuvenil da capital tem receio de se tornar vítimas da criminalidade. O medo das crianças e adolescentes se aproxima do índice de 66% da população adulta que também teme assaltos e roubos, segundo números do IRBEM apresentados no início do ano.

Realizado em parceria com o Ibope Inteligência, o estudo teve apoio do Instituto Alana e C&A. Ao todo, 805 crianças e jovens foram entrevistados entre os dias 13 e 30 de junho, em todas as regiões da cidade. Os números apontam ainda que 49% das crianças e dos adolescentes sairiam da cidade caso tivessem oportunidade. Outros 49% preferem continuar vivendo em São Paulo. Segundo a Rede Nossa São Paulo, a margem de erro é de 3 pontos porcentuais para mais ou para menos.

Abordada por um assaltante quando tinha 11 anos, a estudante do 8º ano Mariana Loreto, de 13 anos, desenvolveu o medo de ser assaltada novamente. A jovem faz uso das tradicionais precauções: esconde o celular dentro da roupa e evita sair de bolsa. "Sou muito medrosa. Minhas amigas até ficam me zoando de tanto medo que tenho", disse. À noite, prefere não andar de ônibus e, por isso, deixa de sair quando não consegue carona. 

Mariana conta que a mãe já teve celular e carro roubados. "Quando esse adulto está desencantado e desalentando, naturalmente a tendência é de que a criança que convive com essa pessoa passe pelo mesmo processo", diz a socióloga e especialista em criança e adolescente Graça Gadelha. 

O maior receio do estudante Lucca Ninni, de 14 anos, é de andar à noite. Na rua, o rapaz também esconde o celular, não atende o telefone ou ouve música, e muda de calçada quando vê alguém suspeito. Lucca se encaixa ainda na metade jovem que deixaria São Paulo. Mas o plano ainda deve demorar. "Quando eu estiver sozinho, for uma pessoa maior, provavelmente eu mudaria. Mas para uma cidade grande", destaca. 

De acordo com o estudo, há indícios de que meninos tendem a ser mais satisfeitos com a qualidade de vida na cidade de São Paulo e as meninas, mais críticas. Entre as meninas, a primeira atividade realizada durante a semana, fora do horário escolar é ajudar nos serviços de casa (29%), seguida por assistir TV/DVD (26%). Já os meninos responderam, principalmente, jogar bola (38%) e assistir TV/DVD (14%).

Para a diretora do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari, as atividades coletivas predominam entre os garotos e as individuais são as preferidas das jovens. "Isso faz com que o índice de bem-estar das meninas seja um pouco menor que os meninos da cidade de São Paulo", afirmou. 

O levantamento aponta ainda que as "igrejas" e o "Corpo de Bombeiros" são as instituições mais bem avaliadas pelos jovens: 86% consideram "ótimo/bom". Já a "Câmara Municipal" recebeu a pior classificação, com 26% de "ótimo/bom".

O estudo revela que os jovens têm baixa sensação de pertencimento ao bairro em que vivem. Dos entrevistados, 45% disseram que a região é "apenas um lugar para morar". Outros 53% afirmaram se sentir "parte de uma comunidade".

Metodologia. Para definir o Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município (Irbem), os entrevistados avaliaram 53 itens em uma escala de 1 a 10. Em educação, o "conhecimento dos professores em relação ao que é ensinado" foi o que recebeu a maior nota, com 8 pontos. Os dados também mostram que os estudantes de escolas particulares (apenas 6% dos jovens da pesquisa) estão mais satisfeitos.

Já em relação à segurança pública, o "modo como as pessoas são tratadas pelos policiais" recebeu nota 4,3 - o índice mais baixo. Um a cada cinco jovens também afirmou ter "medo da polícia". Entre os entrevistados, 61% disseram ter medo de assalto, 56% da violência em geral, 33% do tráfico de drogas e 21% de "sair à noite". Cada criança ou adolescente poderia citar, de forma espontânea, até três respostas. 

Do total de itens avaliados, 40 receberam nota acima da média de 5,5 pontos e 11 ficaram abaixo dela. Os outros dois itens se mantiveram na média. Sobre a qualidade de vida em São Paulo, os jovens deram nota de 7,1.

Mais conteúdo sobre:
São Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.