Felipe Rau
Felipe Rau

Mesmo com ações policiais, cresce o número de roubos na região da Cracolândia

Levantamento feito pelo ‘Estado’ mostra que, entre os meses de maio e junho deste ano, houve 38 crimes desse gênero em vias no entorno da Praça Princesa Isabel; em 2016, foram 12. Comerciantes relatam arrastões e têm de fechar portas mais cedo

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2017 | 03h00

O número de roubos registrados na região da Cracolândia quase triplicou após as operações da Polícia Militar que tiveram início no dia 21 de maio. Mesmo com maior presença policial, o conflito quase semanal com traficantes tem provocado arrastões e feito comerciantes fecharem as portas mais cedo.

Levantamento feito pelo Estado em mais de 200 boletins de ocorrência obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) mostrou que, entre os meses de maio e junho deste ano, houve 38 casos de roubo na região. A maior parte aconteceu depois da operação. Foram 24 crimes só entre os dias 21 de maio e 30 de junho. No mesmo período do ano passado, houve 12 ocorrências – 9 delas a partir de 21 de maio. A alta neste ano foi de 216%, considerando os dois meses. Os números também são maiores do que os de 2015, quando aconteceram 26 roubos no período analisado. 

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Os índices podem estar subnotificados, uma vez que parte das vítimas não registra queixas. A reportagem considerou somente os trechos das Ruas Guaianases e Helvétia e das Avenidas Duque de Caxias e Rio Branco, que circundam a Praça Princesa Isabel – após a primeira das ações policiais, que tinha o objetivo de acabar com o tráfico na região, os usuários “migraram” da Rua Helvétia e Alameda Dino Bueno para a praça. Na ocasião, o prefeito João Doria (PSDB) afirmou que “não havia a possibilidade de a Cracolândia voltar” – hoje o número de viciados na área avança.

Naquele momento, porém, lojas foram depredadas e comerciantes já viam prejuízo. Reportagem do Estado publicada em junho mostrou que escolas também foram alvo dos criminosos. Alunos de uma das unidades de ensino de música sofreram um arrastão e tiveram os instrumentos musicais roubados. Além disso, os estudantes passaram a andar em grupos e sair das aulas mais cedo.

“Tivemos de contratar mais um segurança, pois a região ficou mais perigosa”, diz Armando Froz, proprietário de uma loja de automóveis na Praça Princesa Isabel. Mesmo depois que os dependentes voltaram para a Helvétia, o problema continua. “Por causa da má fama que a praça pegou, muita gente nem aceita vir para cá. Alguns pedem para que os encontremos no metrô para levar algum documento ou pagar alguma prestação.”

O proprietário de uma churrascaria no Largo General Osório, que pediu para não ser identificado, diz que foi roubado há um mês. “Eles levaram de tudo, até as facas.” Para ele, no entanto, a situação não melhorou nem piorou. “É um problema histórico aqui da região. É preciso levar essas pessoas para outro lugar.”

Dono de outra loja de veículos na mesma rua, Sebastião Juarez de Menezes, de 67 anos, conta que o comércio é assaltado com “frequência”. “Fui roubado recentemente, mas não sei dizer se foram usuários de droga ou traficantes. Não sei quem entrou”, diz ele. O problema maior, afirma, é a desistência dos clientes. “Teve uma idosa que ia comprar carro conosco mas, quando viu nosso endereço, disse que não viria porque tinha medo. A nossa região ficou estigmatizada.”

Mesmo quem não foi alvo dos criminosos alega ter sofrido prejuízo. Proprietária de um salão de cabeleireiro na Avenida Rio Branco, Maria Francisca da Silva diz que precisa baixar as portas do estabelecimento “praticamente toda semana”. “Cheguei a fechar cinco vezes no mesmo dia. Temos de ficar desmarcando cliente toda hora e muitos desistem de vir. Na última semana, um cliente nosso teve o carro depredado”, conta. “Estamos vivendo um filme de terror. Achamos que a região ia melhorar, mas piorou”, disse ela. Durante a entrevista, um usuário de droga entrou na loja para pedir dinheiro. Irritado com a recusa, ofendeu Maria e uma funcionária. “É o dia inteiro assim”, conta.

Até o posto de gasolina na Rio Branco que foi invadido por usuários de droga na madrugada da operação, em maio, ainda é alvo de ataques. “Ficamos no fogo cruzado quando há algum conflito com os policiais. Eles (viciados) chegam aqui pedindo gasolina para queimar viaturas. Mas pelo menos não quebram nada”, diz o gerente Juarez Ribeiro da Silva. 

Patrulha e prisões. A Secretaria da Segurança Pública informou que, por causa do aumento dos roubos e furtos na região central, a 1ª Seccional realizou em julho uma operação visando a coibir os crimes contra o patrimônio que resultou na prisão de 103 pessoas, na apreensão de 109 celulares e na recuperação de mais de 3 mil objetos. 

Além disso, desde 21 de maio “houve um reforço no policiamento da Nova Luz”. “A área conta com 212 policiais, sendo 92 da Caep (Companhia de Ações Especiais de Polícia) e do Choque, além dos 120 PMs que já atuam regularmente na área.” 

De 21 de maio a 31 de julho, 313 pessoas foram presas ou apreendidas por envolvimento com tráfico na área. As polícias também apreenderam 287 quilos de entorpecentes, simulacros, facas, balanças de precisão e R$ 119 mil em dinheiro.

Já a Guarda Civil Metropolitana informou que atua de maneira complementar, “a partir do monitoramento realizado com drones, câmeras, um ônibus de vigilância e uma base comunitária”. “Também trabalhamos na proteção dos agentes de saúde, assistentes sociais e funcionários da zeladoria”, ressaltou.

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