Mercado tenta ''descongelar'' a Penha

Técnicos do Conpresp estudam rever tombamento de imóveis, como antigo seminário

Rodrigo Brancatelli, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2010 | 00h00

As estreitas ruazinhas da Penha e de São Miguel Paulista, dois dos bairros mais antigos de São Paulo, na zona leste da capital, estão atualmente vendo uma estranha movimentação de engenheiros, técnicos e, principalmente, empreiteiros. Integrantes do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio de São Paulo (Conpresp) têm feito visitas nos dois centros históricos para reestudar o tombamento dessas áreas.

Segundo conselheiros, vários imóveis que hoje são protegidos da especulação devem ser liberados pelo órgão de patrimônio municipal, como casas operárias e até um tradicional seminário na Penha. Alguns locais já sofrem o assédio de construtoras, antes mesmo de qualquer alteração ser aprovada - assim, os dois bairros que hoje mais parecem pequenas cidades do interior vão ser transformados em breve num dos principais alvos do mercado imobiliário.

Tanto a Penha quanto São Miguel tiveram os centros congelados por força da resolução de Zonas Especiais de Preservação Cultural (Zepec), que abriu processo de tombamento de endereços em diversas subprefeituras a partir de 2006. Isso significa que eles podem ter valor histórico ou cultural para a capital e não devem ser alterados sem autorização expressa da Prefeitura. Ainda assim, segundo o Conpresp, "as indicações das Zepecs foram feitas sem nenhuma avaliação técnica", e precisam agora passar por reavaliação.

Espigões. Em outras palavras, vários imóveis que hoje estão protegidos poderão ser demolidos, abrindo espaço para novos empreendimentos. No lugar das casas operárias, antigos galpões de fábricas e residências que remontam ao tempo que a região ainda era conhecida como "freguesia", diversos espigões residenciais deverão ser erguidos, mudando a paisagem tanto da Penha quanto a de São Miguel. "Não adianta tombar por tombar", defende o vereador Toninho Paiva (PR), representante do Legislativo no Conpresp. "É preciso mudar o pensamento, senão os bairros não vão se desenvolver. A verticalização está aí, se você restringe, não progride."

Um dos imóveis da Penha que deve ser liberado para o mercado é o do Seminário Santo Afonso, inaugurado em 1951 e atualmente desativado. O prédio de 226 cômodos, localizado em um terreno de 6 mil m², funcionou como casa dos padres redentoristas. "O hospital não tem valor histórico, vamos colocar aquilo no chão", diz Toninho Paiva. "Claro que precisamos definir um limite de altura ali para os prédios, 12, 15 andares no máximo, até para não ficar maior do que a igreja histórico que há ali do lado. Se não mudarmos o tombamento ali, a região não cresce."

As visitas, no entanto, já começam a causar polêmica. "O seminário foi construído com dinheiro dos próprios moradores do bairro", diz o fotógrafo Douglas Nascimento, que mantém o site São Paulo Abandonada. "Falaram que o imóvel está caindo aos pedaços, ele está intacto, não há uma mancha de umidade, o mármore está brilhando. História não falta ao local."

O NOME DO BAIRRO

PENHA

ZONA LESTE

A palavra "penha" significa "grande massa de rocha isolada e saliente", "penhasco" ou "penedo". O bairro tem esse nome pois começou a ser povoado ao redor da antiga ermida de Nossa Senhora da Penha, capela construída na freguesia no ano de 1667.

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