JOSE MARIA TOMAZELA/ESTADAO
JOSE MARIA TOMAZELA/ESTADAO

Memorial resgata obra de padre que denunciou ditadura em Via Sacra

O italiano Giulio Liverani pintou os algozes de Cristo retratados como militares; painéis serão abertos à visitação

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2016 | 20h40

SOROCABA - A paróquia de Nossa Senhora das Graças, em Vargem Grande Paulista, região metropolitana de São Paulo, está resgatando a obra do padre italiano Giulio Liverani que, em plena ditadura, pintou a Via Sacra com os algozes de Cristo retratados como militares. Os 15 módulos com um total de mais de cem painéis vão compor um memorial aberto à visitação, no pavimento superior da igreja. O espaço está em final de reforma e terá elevador para cadeirantes.

O atual pároco, padre Reginaldo Machado, conta que a instalação do Memorial do Padre Giulio integra as obras de reforma da igreja e atende a um desejo da comunidade de que a obra seja exposta. “É um patrimônio de grande valor histórico e passará a ter o merecido destaque.” Os painéis foram pintados entre 1979 e 1982, quando o padre italiano esteve à frente da paróquia. Em sua versão da Paixão e Morte de Cristo, ele retratou os algozes de Jesus em uniformes das Forças Armadas, numa denúncia às torturas contra opositores do regime.

As pinturas foram expostas na igreja entre os governos dos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo e rendeu polêmica. Liverani pintou em sua versão da Via Sacra, além de crianças, moradoras da cidade na época, uma figura representando o jornalista Vladimir Herzog, morto nos porões da ditadura em 1975. Ele retratou ainda banqueiros, políticos e a elite do período, ao lado do figuras populares com expressões de sofrimento.

Em 1983, o padre Liverani foi obrigado a retornar para a Itália. Na época alegou-se que ele precisava fazer tratamento de saúde. Jornais italianos, no entanto, publicaram que ele sofria perseguição do regime ditatorial. Durante muitos anos, a Via Sacra permaneceu sem destaque no interior da igreja. Com a reforma iniciada em 2014, o padre Reginaldo atendeu a pedidos da comunidade e incluiu o memorial no projeto para dar uma nova dimensão à obra do artista italiano.

A imagem da padroeira, também histórica, ganhou um nicho definitivo na parte frontal da igreja. Segundo ele, as obras são mais um passo para tornar a igreja um santuário dedicado a Nossa Senhora das Graças. “O culto à Virgem já atrai fiéis de toda a região e temos realizado todo mês, no dia 27, a missa da medalha milagrosa, com a igreja cheia”, disse. O templo tem capacidade para 1,1 mil fiéis. 

O memorial será inaugurado no fim deste ano, com as reformas da igreja. O padre Giulio Liverani tem obras espalhadas também pelas igrejas e castelos do Vêneto, na Itália. No fim da vida, ele manifestou desejo de voltar ao Brasil e morreu, em 1997, em Aquidabã (SE), onde foi sepultado.

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