Marcelo Fernandes, o caçador de chefs

Antes de virarem grifes, ele investiu em nomes como Alex Atala e Murakami

Valéria França, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2011 | 00h00

Ele começou como boy de um escritório de contabilidade e virou referência no mundo da gastronomia. Longe das panelas, mas próximo do caixa, o empreendedor Marcelo Fernandes, de 44 anos, tem na sua lista de negócios bem sucedidos os restaurantes D.O.M., Kinoshita, Mercearia do Francês e, mais recentemente, o moderninho espanhol Clos de Tapas. E vem por aí, até o fim do ano, um italiano em parceria com Jefferson Rueda, ex-chef do Pomodori.

"Ele é um samurai dos negócios", diz Tsuyoshi Murakami, chef e sócio de Fernandes no Kinoshita, hoje um restaurante de alta gastronomia japonesa. Em 2007, a casa era apenas mais uma entre tantos endereços da Liberdade, na região central, onde se come bom sushi.

"O Marcelo era cliente do meu restaurante na Liberdade", conta Murakami. "Quando ficou sabendo, em 2007, que o negócio estava à beira da falência, veio falar comigo." Fernandes perguntou se o sushiman gostaria de abrir outro negócio. "Olhando bem nos meus olhos, de um jeito muito sutil, ainda disse que se precisasse de ajuda ou se tivesse outra ideia ele estava à disposição."

Murakami voltou no dia seguinte e juntos bolaram um novo perfil para o Kinoshita. A essa altura, Fernandes já era dono da Mercearia do Francês. Murakami sabia da fama do cliente de ter apostado em Alex Atala - antes do chef ser uma grife - e montado com sucesso o D.O.M.. Na época, um modelo de restaurante que parecia mais um sonho. Hoje, dez anos depois, é o sétimo melhor do mundo, de acordo com o ranking da revista britânica Restaurant, a bíblia do setor.

Fernandes e Atala estudaram juntos no Colégio Regina Mundi, no Sacomã, bairro vizinho ao Ipiranga, onde morava na zona sul da cidade. "Ele era conhecido como Milad e tinha esse jeito descolado, usava calça Soft Machine, que era grife, e ganhava todas as garotas", conta Fernandes, mais conhecido na escola como Manão. "Mas fomos convidados a sair do colégio na sexta série e perdemos contato."

Sociedade. Os dois se reencontraram em 1999 no Namesa, primeiro restaurante de Atala, com estilo bem descontraído, nos Jardins. "Passei na frente com o carro e ele estava na porta do restaurante. Parei e começamos a conversar." Foi um tal de "Manão" pra cá e "Milad" pra lá e logo veio o assunto negócios. "Foi nessa conversa que o D.O.M. começou a tomar forma", lembra.

Fernandes estava quebrado. "Não tinha dinheiro nem para pagar o estacionamento avulso", conta. Na década de 1980, ele abriu uma empresa de distribuição de produtos de higiene, que passou a ser distribuidora oficial da Gessy Lever, até que o contrato foi cancelado e o negócio faliu.

Em 2001, o D.O.M. abria as portas. Fernandes se dividia entre a administração do negócio e o atendimento ao público, num ritmo quase obsessivo. "Era a primeira vez que lidava com preços tão altos." E, com medo de uma nova falência, desdobrava-se para impedir desperdícios. "Conseguimos atrair os investidores certos. Quatro anos depois, o restaurante começou a dar lucro." Em 2005, Fernandes vendeu sua parte para Marco Ceresa, milionário italiano e ex-fornecedor de peças para a montadora Fiat, que conheceu nos salão do D.O.M..

Hoje seus restaurantes empregam 130 funcionários. Em paralelo, Fernandes continua com a Pacarel, empresa distribuidora de produtos descartáveis e de higiene, que toca em sociedade com Luis Bastos Dinis, na Mooca.

Talentos. Como ele conseguiu pular da higiene para a alta gastronomia? "Ele é um bom empreendedor. E sabe identificar talentos", responde Murakami, que ganhou fama internacional.

"O grande reconhecimento do meu trabalho foi ver Murakami ser convidado para o Loft Project", diz Fernandes. Em Londres, fenômeno da vida gastronômica, os supper clubs reúnem pequenos grupos com paladar afiado para degustações especiais. Um deles é The Loft Project, organizado pelo chef português Nuno Mendes, que abre as portas de casa para receber grandes chefs. No início de abril, durante três dias, Murakami mostrou sua culinária de sabores exóticos. E ganhou elogios da crítica especializada europeia.

Agora Fernandes se preocupa em diminuir os preços da Mercearia do Francês. "A partir de julho, o menu terá preços menores", promete. Só que a porção também diminuiu.

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