Manipulando a memória

Nossa memória pode ser imaginada como uma rede que interliga fatos, imagens, odores e sabores armazenados em nosso cérebro. A imagem de um filé está associado a um determinado sabor e o cheiro de um perfume à pessoa que amamos. É por isso que "puxamos o fio da memória", cada recordação leva a uma outra e podemos passar o dia revivendo experiências interligadas.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2015 | 02h04

Faz algum tempo, descrevi aqui como é possível criar em um rato a lembrança de um fato que ele nunca viveu. (Como criar memória falsa. O Estado de S. Paulo, 3 de agosto de 2013). Agora, os cientistas levaram esse experimento um passo adiante. Demonstraram que é possível associar duas memórias adquiridas independentemente. É como se, por meio de um truque tecnológico, fosse possível associar o cheiro de um leão à imagem do secretário da Receita Federal.

Ivan Pavlov ganhou o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1904 pela descoberta do reflexo condicionado. Medindo a quantidade de suco gástrico produzido por um cachorro, ele observou que sempre que trazia a refeição para o animal, bastava o cachorro sentir o cheiro da comida que começava a produzir suco gástrico. Aí Pavlov resolveu tocar um apito cada vez que trazia o alimento. Depois de um tempo, observou que bastava tocar o apito para o cachorro começar a produzir suco gástrico. Ele postulou que seus cachorros já haviam associado cheiro de comida à produção de suco gástrico. Quando ele passou a apitar cada vez que trazia a comida, os cachorros associaram o apito à comida e, na sua memória, apito, ou cheiro de comida, indicavam alimentação a caminho. Em outras palavras, Pavlov demonstrou como era possível associar na memória de um cachorro dois eventos aparentemente não correlacionados (apito e comida). Quando você beija o filho que mostra um boletim com notas altas está fazendo a mesma coisa. Mas, nesses casos, estamos modificando a memória associando dois eventos vividos. Agora foi possível criar a associação sem que o animal viva as experiências.

Nesse novo experimento, os cientistas injetaram na região do cérebro responsável pelas memórias espaciais um pedaço de DNA que só é absorvido pelas células ativas. Em seguida, colocaram os ratos em uma gaiola quadrada. Ao memorizar o formato da gaiola, algumas células dessa região do cérebro, responsáveis por guardar essas memórias, foram ativadas e, portanto, absorveram esse pedaço de DNA. Finda essa etapa, você tinha um rato capaz de lembrar a gaiola quadrada e as células responsáveis por essa memória eram as únicas "marcadas" com esse pedaço de DNA. Em seguida, eles pegaram os mesmos ratos e injetaram a mesma molécula de DNA na região do cérebro responsável por guardar memórias relacionadas ao medo. O rato então foi colocado em outro ambiente (gaiola redonda) e, quando tocava o solo, levava um choque e era retirado da gaiola. As células que eram ativadas pelo choque na gaiola redonda absorviam o DNA.

Finda essas duas etapas, temos um rato que "conhece" uma gaiola quadrada inofensiva e tem nas células responsáveis por esse conhecimento nosso pedaço de DNA. Esse mesmo rato tem medo de tomar choque em gaiolas redondas, e possui nas células responsáveis por esse medo nosso pedaço de DNA.

Agora vem a parte mais interessante. Esse pedaço de DNA contém um sistema que permite aos cientistas fazerem essas células serem ativadas ao bel-prazer dos cientistas. Basta iluminá-las com uma lâmpada forte. Assim, na terceira parte do experimento, esses dois agrupamentos de células, em regiões diferentes do cérebro, um contendo a memória da inofensiva gaiola quadrada e outro com a memória do choque na gaiola redonda, são iluminados simultaneamente. As células do ambiente quadrado são ativadas e também as do medo. Feito isso, o rato é colocado novamente no ambiente quadrado. E o que acontece? O rato fica apavorado. Pronto. A memória do choque foi associada ao ambiente quadrado sem que o rato tenha tomado um choque ali.

É como se uma pessoa que tem medo de entrar em um porão porque já foi picada por escorpião, mas vive confortavelmente em seu quarto, tivesse o cérebro manipulado de tal maneira que ela passa a ter medo de encontrar um escorpião no quarto. Sem que nunca tenha encontrado um escorpião no quarto.

Aos poucos, entendemos o funcionamento dos mecanismos da memória para podermos criar memórias falsas e associar memórias preexistentes manipulando diretamente o cérebro. Sem dúvida um feito científico importante, que, se transformado em tecnologia, pode melhorar nossa vida ou torná-la infernal.

* É biólogo

Mais informações: Artificial Association of Pre-stored Information to Generate a Qualitatively New Memory. Cell Reports Vol. 11 Pag. 1 2015

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