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Manifestantes fazem ato em São Paulo contra a prisão de ativistas

Luiz Fernando Toledo - O Estado de S. Paulo

01 Julho 2014 | 20h 04

Pelo menos seis pessoas foram detidas no protesto; a polícia usou bombas de gás após o tumulto

Atualizada às 23h44

SÃO PAULO - O segundo ato contra a prisão do estudante Fábio Hideki Harano, de 26 anos, e do professor Rafael Lusvarghi, de 29, terminou em confronto entre manifestantes e policiais militares, na noite desta terça-feira, 1º, na Praça Roosevelt, região central de São Paulo. Eles são acusados pela Polícia Civil de ser black blocs. Seis ativistas foram detidos - entre eles, dois advogados. A PM usou bomba de gás lacrimogêneo.

A mesa-redonda para discutir a prisão do estudante de Jornalismo e funcionário da Universidade de São Paulo (USP) e do professor de inglês começou às 18h. Segundo a PM, 300 manifestantes participaram do ato.

Sílvia Daskal Hirschbrush e Daniel Luiz Passos Biral, da organização Advogados Ativistas, foram detidos pela PM e encaminhados ao 78.º Distrito Policial (Jardins). A entidade afirmou, em rede social, que um dos presos chegou a desmaiar por causa da violência dos PMs. Às 23h desta terça, eles já haviam sido liberados, mas quatro detidos, cuja identidade não foi divulgada pela polícia, ainda prestavam esclarecimentos no DP dos Jardins.

Evelson de Freitas
Manifestantes criticaram forte aparato policial

Segundo o advogado ativista Vinicius Rogério, seus colegas foram conversar com a policial da Tropa de Choque porque haviam recebido reclamações de que o grupo Observatório Legal era impedido de acompanhar o trabalho da PM. Segundo Rogério, após questionar a ausência de identificação da policial, eles teriam sido agarrados pelo pescoço e colocados na viatura.

O músico que se identificou como James Jones disse que foi o motivo para o início do confronto entre ativistas e a PM. "Eu estava passando e um policial me escolheu como alvo, acho que para acabar com o ato", disse, depois de sair da delegacia. Ele foi encaminhado ao 78º DP por resistência aos policiais. Ele afirmou que tentou dialogar com os policiais antes de ser agarrado. "Calma lá, não sou criminoso, você não precisa me prender", teria dito. 

Manifestantes avançaram sobre os policiais neste momento para evitar a prisão do rapaz. Foi quando a primeira bomba de gás lacrimogêneo foi atirada. 

Ao contrário do ato do dia 23, quando Harano e Lusvarghi foram presos após quebra-quebra em Pinheiros, na zona oeste, e a destruição de uma concessionária de luxo na Marginal, em passeata do Movimento Passe Livre (MPL) de comemoração de um ano de redução das tarifas, era grande o aparato policial. 

O encontro na Roosevelt foi acompanhado pelo Choque, pela cavalaria da PM e pela Força Tática. O forte esquema de segurança foi criticado pelos participantes da mesa-redonda, que teve a presença de Pablo Ortellado (USP), Jorge Luiz Souto Maior (USP), Esther Solano (Unifesp), Edson Teles (Unifesp) e da psicanalista Maria Rita Kehl, que integra a Comissão Nacional da Verdade.

“Estamos em uma democracia autoritária, que não quer ouvir as ruas”, afirmou Teles. “Pela libertação imediata de Fábio e outros presos políticos no Brasil”, disse ele, que é professor de Filosofia da Unifesp. Ele criticou a forte presença policial no ato e a comparou ao autoritarismo da ditadura militar. “Essas ações desejam constranger ações de rompimento político”, afirmou.

Apesar da repressão, o fotógrafo Andre Liohn, vencedor do prêmio Roberto Capa Gold Medal, comemorou a organização do ato. “Está sendo fantástico que, depois de um ano, aconteça um processo de politização. Esses policiais que estão com todo esse aparato, só estão aqui porque são apoiados por muitos brasileiros. Esse tipo de manifestação é fundamental para atrair a população novamente às manifestações”, afirmou.

Testemunha. O padre Julio Lancellotti, vigário para o povo da rua, também participou da mesa-redonda e afirmou que foi testemunha da revista a Harano. “Não havia nada na mochila dele. Foi claramente um golpe”, disse. Ele afirmou que vai depor em favor do estudante e funcionário da USP se houver necessidade. “A polícia está agindo como se estivéssemos nos tempos do Império Romano. Estas prisões são arbitrárias”, disse o padre.