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Manifestantes depredam Ceagesp em protesto contra cobrança de estacionamento

Celso Filho, Felipe Tau, Laura Maia de Castro, Mônica Reolom e Victor Vieira - O Estado de S. Paulo

14 Março 2014 | 11h 59

Um caminhão, um carro, cabines de fiscalização, caçambas e prédios foram incendiados; pelo menos quatro seguranças do Ceagesp ficaram feridos por pedradas e houve tiros

Atualizado às 18h04

SÃO PAULO - Manifestantes contrários à cobrança de estacionamento na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (Ceagesp), na Avenida Dr. Gastão Vidigal, Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, promoveram uma onda de depredação no local entre a manhã e a tarde desta sexta-feira, 14.

Segundo a Ceagesp, pelo menos quatro seguranças foram feridos a pedradas e tiveram de ser socorridos. De acordo com trabalhadores e pessoas que estavam na manifestação, houve tiros. Um homem foi atingido quando um grupo tentou entrar em um prédio administrativo. A vítima foi levada ao Hospital Universitário e passou por uma cirurgia. De acordo com a assessoria do HU, ele passa bem.

"Os vigias estavam guardando o prédio e os manifestantes pediram pra eles saírem. Como eles não atenderam, começaram a atacar com pedras e os guardas atiraram em um menino na barriga", disse o vendedor Rodrigo Mendes, de 24 anos, que trabalha no local. A assessoria de imprensa do Ceagesp afirmou que os tiros partiram dos seguranças, mas não soube dizer se alguém foi atingido.

O sistema de cobrança do estacionamento ficou totalmente danificado nas portarias 5 e 3 e o Ceagesp marcou para a tarde desta sexta uma reunião para avaliar os prejuízos e decidir as medidas a serem tomadas. Ainda não foi definido se o Ceagesp abrirá no sábado para o "varejão".

A feirante Fernanda Andrade de Camargo, que trabalha no pavilhão de verduras, disse que às 16 horas o clima no local era tranquilo e muitos comerciantes de áreas que não foram atingidas voltaram a trabalhar. No entanto, seguranças e a Polícia Militar não estavam permitindo a entrada e saída de pessoas no entreposto, o que poderia comprometer as vendas dos hortifrútis. "Ninguém entra e nem sai. Nas verduras, tudo está funcionando normalmente, parece que não aconteceu nada, mas o movimento está bem fraco", contou.

Às 17h40, os feirantes ainda não conseguiam entrar na Ceagesp para pegar as mercadorias já compradas. Segundo eles, todos os portões estão fechados e cerca de 50 caminhões aguardam para circular na Marginal. "Só precisamos pegar a nossa mercadoria. É um prejuízo estimado em cerca de R$ 20 mil porque eu tenho cinco bancas, imagina todos os outros feirantes que estão aí", disse o feirante Milton Lima, de 35 anos.

A C3V (Companhia de Concessões em Circulação Veicular), responsável pela organização do sistema viário da Ceagesp, disse em nota lamentar os incidentes. A empresa ainda informou que na quinta-feira, primeiro dia de cobrança, não foram registrados problemas no funcionamento do sistema ou outros incidentes.

Investigação. O 91 DP (Ceagesp) já fez o registro parcial do boletim de ocorrência do tumulto da manhã desta sexta-feira, 14, na Ceagesp. A Polícia Civil investiga dano ao patrimônio público, lesão corporal, incêndio e associação criminosa (formação de quadrilha). A investigação de tentativa de homicídio depende da confirmação de feridos a bala e dos relatos de testemunhas e vítimas.

Segundo a Polícia Civil, as imagens das câmeras de segurança já foram solicitadas e os registros da central de monitoramento foram preservados, apesar da depredação.

Pelo menos dez funcionários da empresa de segurança estão no DP para prestar depoimento. Também compareceram representantes da Ceagesp, da concessionária e da empresa que teve o guincho queimado durante a manifestação.

Como começou. Segundo a Polícia Militar, o pátio do entreposto foi invadido às 11h15 por cerca de 100 pessoas. Um grupo ateou fogo em caixas de frutas, cabines de fiscalização, caçambas, um armazém, um carro e em ao menos um caminhão no pátio do entreposto. Dois prédios, que seriam da administração, segundo funcionários, também foram incendiados - um deles seria depósito de arquivos e documentos da companhia.

O ato começou por volta das 10 horas e chegou a reunir 300 pessoas, segundo a PM. Os manifestantes impediram a passagem no portão 3, um dos principais acessos e dificultaram o trânsito na região. Às 12h10, o grupo ocupava duas faixas da Gastão no sentido Pinheiros e a recomendação da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) era evitar a região.

A Marginal do Pinheiros somava cerca de 1 quilômetro de congestionamento nas proximidades da Ceagesp, entre a Avenida Alexandre Mackenzie e a Ponte do Jaguaré.

O Batalhão de Choque chegou ao local às 12h47 e se retirou por volta das 14 horas, quando a situação estava controlada. Segundo o tenente coronel José Balastiero, comandante do 2º Batalhão de Choque, sete viaturas com 150 homens do Choque foram enviadas. Balastiero disse que ninguém foi detido e afirmou que a tropa lançou três bombas de efeito moral e quatro de gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes. Alguns deles lançaram frutas contra a tropa antes de correr.

Segundo o coronel Mauro Lopes, porta-voz da PM, já havia viaturas no local, mas os policiais não partiram para o combate porque a situação fugiu do controle e seria necessário reforço.

Bombeiros. O capitão André Bastos disse que os bombeiros atuaram em três locais: no portão 13 e em dois prédios administrativos - um deles chamado entreposto. Segundo ele, o combate às chamas no prédio do entreposto, que foi o mais atingido, demorou cerca de 40 minutos. O prédio foi bastante danificado. "Foram utilizados contêineres de lixo incendiados para quebrar os vidros e houve propagação das chamas com o material de escritório que tinha la dentro." Foram empenhados 35 homens e 12 viaturas.

O tenente Vale, também dos bombeiros, relatou dificuldades para entrar no pátio, por causa da falta de segurança.

Tarifa. A cobrança de estacionamento no Ceagesp, maior entreposto comercial de alimentos da América Latina, começou nesta quinta-feira, 13, e desagradou comerciantes e frequentadores. Pelas novas regras, a permanência de automóveis e utilitários por uma hora será de R$ 6. A taxa aumenta progressivamente até R$ 50, acima de 10 horas. Motos pagam uma diária de R$ 2.

Caminhões de dois eixos terão tarifa de R$ 4 para até 4 horas, com o máximo de R$ 50 acima de 10 horas. As tarifas de caminhões de três a seis eixos começam em R$ 5, para 4 horas, e vão até R$ 60, acima de 10 horas. Aos sábados e domingos, o preço único para quem vai ao Varejão é de R$ 4.

A Ceagesp argumenta que a cobrança visa financiar a modernização da unidade, além de "disciplinar" o fluxo de veículos, evitando que caminhões ocupem vagas por dias.