MARCELLO DANTAS/O POPULAR
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Mãe que obrigou filho a fazer hemodiálise diz ter mais esperança 

Jovem que inicialmente recusou a fazer tratamento agora traça planos para o futuro: 'Se ele faz planos, minha esperança aumenta, pode ser um sinal de que vai lutar para continuar vivendo'

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2017 | 22h07

SOROCABA – O Dia das Mães, neste domingo, 14, foi muito especial para a professora Edina Maria Alves Borges, de 55 anos, moradora de Trindade, em Goiás. Ela ouviu do filho José Humberto Pires de Campos Filho, de 22 anos, que ele tem plano de comprar um carro. Há três meses, o único plano de José Humberto era morrer. Ele é o jovem que, acometido de doença crônica nos rins, negava-se a fazer hemodiálise, única forma de se manter vivo. A mãe precisou recorrer à Justiça para obrigar o filho a se tratar. 

“Se ele faz planos, minha esperança aumenta, pode ser um sinal de que vai lutar para continuar vivendo. Ele até já falou em voltar para a faculdade”, comemora a mãe, medindo as palavras, com medo de desagradar o filho - em tratamento, ele não falou com a reportagem. “Eu, a avó e as tias o tratamos com carinho, mas com muito cuidado e uma certa leveza, sempre com medo de que ele nos escape pelos dedos”, disse Edina ao Estado.

Ela contou que, no domingo, o filho acordou e saiu do quarto para lhe dar um abraço. “Almoçou comigo, só nos dois, conversando de tudo, menos de doença. Depois ele ligou para a avó e foi vê-la. Saiu a pé, caminhando, coisa que pouco faz. Foi um dia feliz.”

Edina conta que o filho continua com a saúde muito frágil e, se não tivesse aceitado fazer hemodiálise, provavelmente já teria morrido. Ele vai às sessões às terças e sextas-feiras, numa clínica de Goiânia, mas nem sempre foi assim. Mesmo depois que a Justiça deu a liminar, ele chegou a ficar dez dias sem fazer o tratamento. “Foi no início de abril, ele saiu do quarto e falou que estava muito mal e queria ir se tratar. Eu o levei, estava tão ruim que quiseram levá-lo para a UTI.” José Humberto precisou passar também por duas transfusões de sangue para controlar uma grave anemia.

A mãe relata que, depois disso, ele passou a ser mais assíduo nas hemodiálises, embora ainda considere o tratamento extremamente penoso. “No dia de sessão, ele acorda mau humorado e volta de lá passando mal. É quando ele passa a noite vomitando e diz que o tratamento não adianta, que soube de pessoas que morreram na hemodiálise.” Nessas horas, o filho diz que só vai se tratar enquanto durar a liminar, que expira em julho próximo. “Eu não questiono, sei que ele está indo por vontade própria, pois a liminar não o obriga, nem permite que seja levado contra sua vontade. Tenho esperança que continue assim.”

Ela diz que o filho está mais animado porque, no fim deste mês, a irmã Keity Miller e o marido dela viajarão dos Estados Unidos, onde moram, para visitá-lo. “Ele se dá muito bem com os dois, por isso está na expectativa pela chegada. Também notei que ele está mais vaidoso, tem se arrumado para sair, mesmo quando vai para o tratamento. Ele até já saiu com alguns amigos.”

Edina ainda não decidiu se, em julho, vai pedir uma nova liminar para que o filho se mantenha em tratamento. “Não me atrevo a confrontá-lo, pois ele tem suas ideias e a parte psicológica continua a mesma. Ele conversou com três psicólogos e dois terapeutas que se dispuseram a ajudá-lo, mas não quis fazer tratamento com nenhum.”

De acordo com Edina, o transplante de rim ainda é uma possibilidade, mas o filho se recusa a falar sobre isso. “Percebo que ele tem muito medo de hospital e da cirurgia. O que os médicos dizem é que, no estado dele, a cirurgia não é recomendável. Ele precisa primeiro se recuperar.”

A doença renal crônica de José Humberto foi diagnosticada em 2015, quando ele ainda morava com o pai, nos Estados Unidos. Como o pai também estava doente, com diagnóstico de câncer, e continua em tratamento, o jovem retornou ao Brasil e passou a viver com a mãe, mas sempre resistindo a se tratar. Segundo Edina, depois que ele passou a fazer hemodiálise com mais regularidade, a situação ficou estável. “Evito ficar falando no assunto em nome da nossa boa convivência. Cada dia que ele acorda e está de pé, é mais um dia com ele. Vivo a vida assim, um dia de cada vez.”

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