'Linchamentos expressam existência de Estado seletivo', afirma professor da USP

Pesquisador sênio do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Marcos César Alvarez afirma que alguns indivíduos estão excluídos da proteção das leis

Marina Azaredo, O Estado de S. Paulo

06 Maio 2014 | 18h57

SÃO PAULO - O País ficou chocado com o linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, neste sábado, 10. Ela foi linchada por moradores do Guarujá, depois de uma falsa acusação de que sequestrava crianças. 

A seguir, Marcos César Alvarez, pesquisador sênio do Núcleo de Estudos da Violência da USP (Universidade de São Paulo) e professor do Departamento de Sociologia da instituição, afirma que o linchamento é reflexo de uma "hierarquização da cidadania". Confira:

O Brasil é o país que mais lincha no mundo?

É difícil a comparação por causa das deficiências de informação sobre esse tipo de crime. O que é certo é que a prática é bem mais frequente no Brasil que em muitos países e desperta pouca indignação na sociedade brasileira.

Qual é o perfil do linchador?

Umas pesquisa realizada pelo professor José de Souza Martins, já há alguns anos, apontava que, em geral, os linchamentos no Brasil não correspondiam à imagem da multidão anônima descontrolada, mas eram praticados com frequência por grupos relativamente pequenos, com alguma relação de vizinhança ou parentesco da vítima.

Quem lincha tem consciência do que está fazendo?

Outro aspecto ressaltado por diversos trabalhos é que o linchamento é quase sempre um ritual, com regras claras, mesmo que não totalmente conscientes, por parte de quem pratica. A questão da consciência, assim, não é o mais importante, pois os envolvidos sabem do significado do que estão fazendo. De alguma forma, acredito que os participantes têm clara consciência do que estão fazendo, da vulnerabilidade social daqueles que são atacados. Esse aspecto torna tal ato de barbárie ainda mais preocupante em sociedades como a brasileira. Uma mesma lógica está presente na permanência da tortura contra detidos e presos comuns, nas péssimas condições de vida e de violência nas prisões, nas execuções nas periferias das grandes metrópoles. Tais práticas expressam claramente uma tradição de hierarquização da cidadania, já que alguns indivíduos estão excluídos da proteção das leis e podem ser sacrificados, sem maiores consequências. Mais do que uma ausência do Estado, os linchamentos expressam a existência de um Estado seletivo, que não protege ou pune a todos igualmente, e setores da sociedade que reafirmam concepções conservadoras, no que diz respeito ao problema da manutenção da ordem social.

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