MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO
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Las Vegas já busca locais para cassino em SP; Anhembi é uma das apostas

De acordo com projeto em análise no Congresso, Estado receberia até três casas. Empresários estrangeiros pensam em abrir unidades em 2017

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2016 | 03h00

SÃO PAULO - A proposta de liberar jogos de azar no Brasil, que tramita no Congresso, tem aproximado São Paulo de Las Vegas, a capital mundial da jogatina. Grupos dos Estados Unidos e outros empresários estrangeiros já estão à procura de lugares que possam virar cassinos de luxo no Estado. Entre os locais em análise está o Complexo do Anhembi, na zona norte da capital.

De acordo com o projeto, São Paulo receberia até três cassinos. Minas Gerais e Rio de Janeiro teriam dois e os demais Estados, um. Os empreendimentos devem aproveitar equipamentos turísticos e ser construídos principalmente em resorts. A proposta também prevê legalizar bingos, caça-níquel, jogo do bicho e apostas online.

Apesar de ainda serem necessárias aprovação no Congresso e sanção presidencial, empresários acreditam que os cassinos vão poder abrir no segundo semestre de 2017. “Existe uma movimentação mundial no sentido de vir para o Brasil”, diz Olavo Silveira, presidente da Associação Brasileira de Bingos, Cassinos e Similares (Abrabincs). As empresas estão se posicionando, estudando locais e procurando redes de hotéis.”

Entre os interessados estão os irmãos Frank e Lorenzo Fertitta, que venderam o UFC, campeonato de artes marciais mistas (MMA, na sigla em inglês), por US$ 4 bilhões – R$ 13,1 bilhões. Proprietária de uma rede de cassinos de Las Vegas, a família estuda abrir uma unidade no Anhembi, que pertence à Prefeitura. “Eles estão muito capitalizados”, diz Silveira.

Representantes do UFC estiveram reunidos recentemente com a gestão Fernando Haddad (PT) para falar do Anhembi. O presidente da SP Negócios, Rodrigo Pirajá, afirma, porém, que a pauta não incluiu a instalação de um cassino. “Discutimos a vinda de eventos de luta para São Paulo”, diz. Nos Estados Unidos, é comum disputas de MMA ocorrerem em cassinos.

Com o fluxo de turismo de negócios, a capital paulista deve ser alvo da maior parte dos investimentos. Mas há movimentação em outras regiões, a exemplo do Guarujá, no litoral, onde fica o Hotel Jequitimar, do Grupo Silvio Santos. Lá, uma área de eventos deve tornar-se um cassino assim que a proposta for aprovada. O resort não comentou a informação. Empresários ligados a Stanley Ho, que domina o ramo em Macau, na China, também procuraram sócios em São Paulo.

Segundo Luigi Rotunno, presidente da Associação Brasileira de Resorts (ABR), os cassinos brasileiros devem mirar turistas dos Estados Unidos e da América do Sul. “Há ainda 350 mil brasileiros que vão jogar no exterior todo ano. É um público que poderia permanecer e gastar no País”, afirma.

 

Bingos. Proprietário dos luxuosos Bingos Imperador, na Avenida Sumaré, e Imperatriz, na 23 de Maio, o empresário Jair de Paula afirma ter sido procurado por grupos dos Estados Unidos e da Espanha para sociedade. O imóvel de 8 mil m² onde antes funcionava o Imperador está para alugar há dez anos. Um segurança vigia o prédio 24 horas, para evitar a invasão de moradores de rua. “A prioridade do aluguel é minha”, diz.

Disposto a reabrir, o empresário lamentou a limitação de um bingo para cada 150 mil habitantes, incluída no projeto. “Vai acabar direcionando as licenças para quem tem mais dinheiro. Eu queria ter sócio brasileiro, mas vou ser obrigado a me associar a grupos de fora.”

Polêmica. Para os apoiadores da legalização, os jogos de azar vão fortalecer o turismo, criar 450 mil empregos e aumentar em cerca de R$ 20 bilhões a arrecadação do País. “Não existe a opção ‘não ter jogo’. As opções que existem é ‘ter jogo legal’ ou ‘ilegal’”, afirma Olavo Silveira.

A proposta, no entanto, não é bem vista por todos. Opositores afirmam que o Brasil não é capaz de fiscalizar a atividade e relembram casos de fraude e lavagem de dinheiro que levaram à proibição da jogatina.

Para o promotor de Justiça José Carlos Blat, do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), as casas de jogos de azar foram fechadas porque se tornaram “grandes lavanderias”, até para “esquentar” dinheiro oriundo do tráfico de drogas. “Cansei de apreender pagamentos frios, feitos para fomentar esquemas de lavagem de capitais”, afirma. 

Segundo ele, o dinheiro arrecadado com os jogadores, em alguns casos, ia para o “caixa 2”. As casas ficavam com um porcentual de até 30% do valor de origem ilícita.

Outro problema que preocupa o promotor são os jogadores compulsivos. “É considerada uma espécie de drogadição: o cidadão não consegue parar. Temos testemunhos de inúmeras famílias que tiveram seus bens dilapidados.”

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