Arquivo AE
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Kassab retira nome de militar de viaduto

O tributo a Tavares de Souza foi feito em 1981, destacando a ‘efetiva participação do general no movimento revolucionário de 1964’

Caio do Valle,

15 Julho 2012 | 20h56

SÃO PAULO - Julho de 1981. O prefeito Reynaldo de Barros publica um decreto batizando uma ponte sobre o Rio Tietê em homenagem a um figurão da ditadura militar. Passam-se 31 anos e 11 administrações municipais, intercaladas por uma troca de regime de governo. Julho de 2012. O prefeito Gilberto Kassab (PSD) promulga uma lei que tira da ponte o nome dado pelo antecessor. Com a canetada, divulgada no sábado, faz o general Milton Tavares de Souza perder mais um logradouro que recebia o seu nome: o viaduto entre a Penha, na zona leste, e a Vila Maria, na norte.

 

A estrutura, agora, se chama Domingos Franciulli Netto, em memória de um ministro do Superior Tribunal de Justiça morto em 2005. No ano passado, Kassab orientou a base aliada a aprovar o projeto na Câmara Municipal. Ele vinha sendo pressionado por antigos presos políticos e pelo PCdoB a realizar a mudança, proposta pelo ex-prefeito e hoje candidato ao cargo José Serra (PSDB).

 

O engenheiro Ivo Herzog, filho do jornalista Vladimir Herzog (1937-1975), encontrado enforcado nos porões da ditadura, é contra a alteração. "Não devemos apagar os nomes ruins, dos que foram vilões. Essas pessoas tiveram um papel, por pior que tenham sido. E devemos conhecê-lo, até para que não volte a acontecer." Ele defende também que opositores daquele regime virem logradouros, como o jornalista Perseu Abramo (1929-1996).

 

'Extremas dúvidas'

 

Não é uma ação sem importância nomear um endereço. Por isso, só figuras de projeção histórica e social devem inspirar homenagens. É o que diz a historiadora Maria Aparecida de Aquino, professora da Universidade de São Paulo (USP). "Esse general é uma figura sobre a qual pairam extremas dúvidas. Na época, quando a ditadura perdia força, parte da sociedade questionava se o viaduto devia receber o nome, pela relevância e os aspectos da sua contribuição."

 

Crítico feroz do comunismo, perseguidor de guerrilheiros no Araguaia e suposto mentor de sessões de tortura, "Miltinho", como era chamado, esteve no rol dos mais linha-dura dos anos de chumbo. Nascido em Niterói (RJ), estudou no Colégio Militar. Cinco anos após o golpe de 1964, virou general. Ao morrer de ataque cardíaco em junho de 1981, aos 64 anos, comandava o 2.º Exército.

 

Tavares de Souza também foi homenageado como nome de rodovia. Porém, em 2010, a SP-332, na região de Campinas, deixou de ser assim denominada, passando a se chamar Professor Zeferino Vaz. Mas nem tudo está perdido para o militar. Uma praça na Vila Maria ainda conserva o seu nome. Só resta saber até quando.

 

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