Kassab quer fim de feira da Roosevelt

Ideia é transferir para outro lugar as tradicionais barracas montadas aos domingos; vizinhos criticam mais uma proibição da atual gestão CONSOLAÇÃO, CENTRO

CAIO DO VALLE, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2012 | 03h03

Uma das mais tradicionais feiras livres do centro de São Paulo deverá, em breve, mudar de endereço. Por determinação do prefeito Gilberto Kassab (PSD), as barracas de frutas, legumes, condimentos e pastéis que há décadas colorem os domingos do entorno da Praça Roosevelt não poderão continuar ali. A proibição, mais uma na lista da atual gestão, ocorrerá para supostamente beneficiar a praça, prevista para ser reaberta em setembro, após reforma. Kassab afirmou que o comércio de rua poderá "atrapalhar" a diversão dos visitantes da praça.

Mas não era isso o que achavam ontem os frequentadores da feira, lotada, apesar da chuva e do frio. Para eles, a feira perto da praça é um patrimônio da cidade. "Ela permite uma relação social, um vínculo com as pessoas", disse o cantor lírico Jarbas Tauryno, de 48 anos, que mora na região. "Não faz sentido tirá-la daqui. Ninguém da Prefeitura veio consultar os moradores sobre a mudança." Um abaixo-assinado contra a medida está circulando na vizinhança e já conta com 3,5 mil signatários.

A professora Joana Rodrigues, de 53 anos, compra na feira toda semana. Ela suspeita que a remoção tem a ver com comércio e especulação imobiliária. "Só que é uma feira necessária, pois não há sacolões nem mercados por perto. Muitos idosos vêm fazer suas compras aqui."

O movimento de expulsão das 68 barracas do entorno da Roosevelt começou há quatro meses, quando feirantes foram obrigados a sair da Rua João Guimarães Rosa, paralela à praça, e se mudar para a pequena Gravataí, de apenas um quarteirão. Isso fez com que as barracas ficassem espremidas, dificultando o deslocamento de clientes.

Herança. João Claudio Quaresma, de 59 anos, vende frutas há 27 na feira. Ele conta que três propostas de endereços foram rejeitadas pelos feirantes: as Ruas Doutor Cesário Mota Júnior, Epitácio Pessoa e Doutor Teodoro Baíma. A matrícula de sua barraca, de 1955, é herança do sogro. "No começo, a feira ficava na praça. Por que depois de tanto tempo temos de sair?"

Seu colega Luís Fernando Lopes Catarino, de 48 anos, recebeu a barraca de frutas do pai, que ganhou autorização municipal para trabalhar na Roosevelt em 1956. "Nossa feira tem história. Você sabia que ela foi a feira modelo de São Paulo em 1985?"

Segundo ele, foi bem ali que a Prefeitura testou as diretrizes que passariam a nortear esse tipo de comércio na cidade, como a padronização de lonas listradas, uniformes e cores das barracas (amarelo para bananeiros, azul para fruteiros e vermelho para pasteleiros). "Na época, a concessão para ficar só foi dada a quem tinha as matrículas mais antigas. Ainda existe uma barraca com permissão de 1938!"

Kassab disse que a feira vai seguir existindo, mas em um lugar "mais distante". "As pessoas, em especial na Praça Roosevelt, vão aos domingos. E a feira bem ao lado ali é óbvio que atrapalha. Não corramos o risco de ser uma praça abandonada, onde as pessoas não frequentam." Ainda não há data para a feira mudar. / COLABOROU ARTUR RODRIGUES

Inaugurada oficialmente em 1970 pelo presidente Emílio

Garrastazu Médici, a praça já era chamada de Roosevelt desde os anos 1950. O nome foi uma homenagem ao 32.º presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt. Localizada entre as Ruas Augusta e Consolação, a região antes era a chácara de Dona Veridiana Prado, personalidade da aristocracia do café. Só em 1890 essas terras começaram a ser loteadas.

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