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Jogos infantis escondem temas eróticos

Inocentes à primeira vista, games gratuitos da web podem trazer armadilhas para as crianças

Isis Brum / JORNAL DA TARDE, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2011 | 00h00

Com títulos como Sala de Aula Safada, jogos infantis encontrados gratuitamente na internet usam conteúdos sexuais e apelativos. Bullying, exposição do corpo e disputa entre gêneros também são temas recorrentes.

Especialistas divergem quanto ao impacto desse tipo de game na formação psíquica, ética e moral da criança. Mas concordam que ele estimula a sexualidade precoce e deixa a criança vulnerável a pedófilos, que costumam entrar nesses sites. "O agressor pensa que crianças que frequentam esses sites estão mais dispostas a outras conversas", alerta Rodrigo Nejm, da ONG SaferNet Brasil, destacando que o problema é que os "jogos em si não são considerados crime".

"Prazer e ganho associados à violência ou à sexualidade são linguagens muito ruins para a infância", explica a psicóloga Maria Tereza Maldonado, autora dos livros Bullying e Cyberbullying (Editora Moderna) e Comunicação entre Pais e Filhos (Integrare Editora), que tratam desse tema. "Algumas crianças podem internalizar os conteúdos e se sentir estimuladas a reproduzir, na forma de bullying ou violência, esse aprendizado da mulher como objeto, que pode ser desprezado e humilhado."

No site Games2Win, hospedado em Mumbai, na Índia, a reportagem encontrou games eróticos. Alguns têm o selo "hot" (quentes), porque são mais "picantes". Em Babá Safada, a mulher que deveria olhar um bebê e um adolescente recebe o namorado na casa onde trabalha. O jovem derruba coisas no chão. Ao fazer a moça cair, além de o jogador ganhar pontos, ainda se depara com a personagem de calcinha ou sutiã. O jogo termina com a babá beijando na boca o jovem morador da casa.

Em Biblioteca da Escola, o jogador tem sete dias para humilhar a bibliotecária. A professora de Naughty High School usa roupas curtas, tem olhar sensual e andar provocante. No segundo nível, um balde de água despenca sobre ela. Na sequência, uma casca de banana faz com que um homem - aparentemente o diretor do colégio - escorregue e caia entre as pernas da educadora.

Pai de uma menina de 6 anos, o analista de sistemas Christiano Rodrigues, de 33, flagrou a filha em um jogo em que meninos não sabiam, por exemplo, fazer xixi em lugar correto. "Percebi que depois disso ela começou a se interessar por palavras impróprias para a idade dela e a pesquisar. Os resultados eram absurdos." A menina, diz ele, chegou ao site pesquisando "jogos para meninas" em um buscador na internet. "Amigos relataram ter tido o mesmo problema em casa."

O combate a esse tipo de problema, diz Nejm, depende mais do diálogo entre pais e filhos do que de tecnologia que bloqueie ou retire página do ar. "Os pais têm de navegar com os filhos. É preciso acompanhar e colocar limites."

Se os pais proíbem os filhos de saírem sozinhos na rua porque acreditam que não têm maturidade para lidar com os perigos, também não podem deixar os pequenos "andarem" a sós na internet. É esse o recado dos especialistas. Um dos motivos, afirmam, é evitar que se tornem iscas de pedófilos, que costumam frequentar sites de jogos. Outro é com relação ao impacto - negativo - desse tipo de conteúdo para formação da criança.

Risco. Luciana Ruffo, do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Infância da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), alerta que esse tipo de site tende a levar a criança a acreditar que é natural tirar a roupa e se expor. "É uma arma para pedófilos."

A psicóloga chama a atenção para os valores transmitidos pelos pais em casa. "A criança tem um lado que gosta de tudo o que é errado."

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