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João XXIII deixou como grande legado de seu pontificado o Concílio Vaticano II

Chamado de 'o papa bom', João XXII tinha um rosto redondo e bonachão, bom humor constante e admirável facilidade de se aproximar das pessoas

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2014 | 02h07

O papa João XXIII sabia bem que estava armando um imenso desafio e uma grande confusão para a Igreja Católica, ao convocar um concílio ecumênico, em janeiro de 1959. Ele registrou em seu Diário da Alma, uma autobiografia íntima de 600 páginas, a reação dos cardeais à reunião de 2.500 bispos no Vaticano. Em 10 de agosto de 1961, descreveu com bom humor o impacto causado pela novidade.

"Quando, em 28 de outubro de 1958, os cardeais da Santa Igreja Romana me designaram para a suprema responsabilidade do governo do rebanho universal de Cristo Jesus, aos 77 anos de idade, havia a convicção de que eu seria um papa de transição. Em vez disso, estou já à véspera do quarto ano de pontificado e na expectativa de um robusto programa a ser executado no mundo inteiro, que olha e espera. Quanto a mim, estou como São Martino: nec mori timuit, nec vivere recusavit (nem teve medo de morrer nem se recusou a viver)".

Patriarca de Veneza, o italiano Angelo Giuseppe Roncalli havia embarcado em um trem para assistir aos funerais do papa Pio XII e participar do conclave. Despediu-se com a promessa de voltar algumas semanas depois, sem imaginar que os 55 membros do Colégio Cardinalício fossem querer um papa mais velho. Mais do que nos tempos atuais, um ancião para os padrões da época.

O conclave se iniciou no dia 25 de outubro e, 11 escrutínios depois, na tarde de 28, seu nome foi anunciado na Praça São Pedro. Houve alguns instantes de silêncio, pois ninguém conseguia ligar o nome ao rosto gorducho e bondoso de Roncalli.

Era uma figura pouco conhecida fora do Norte da Itália, mas muito estimada na diplomacia do Vaticano. Antes de ganhar o Patriarcado, sua primeira e única diocese, serviu como delegado apostólico na Bulgária, na Grécia e na Turquia e foi núncio apostólico em Paris. Apresentou suas credenciais ao chefe do governo provisório, general Charles de Gaulle, em janeiro de 1945, e recebeu o chapéu cardinalício das mãos do presidente Vincent Auriol, em janeiro de 1953, que tinha então esse privilégio, deferência da Santa Sé à França. Depois, foi para Veneza.

Angelo Giuseppe, o quarto dos 13 filhos dos agricultores Giovanni Battista Roncalli e Mariana Mazzola, nasceu em 25 de novembro de 1881 na pequena Sotto il Monte, uma aldeia aos pés dos Alpes, na região de Bérgamo. "Passei o tempo da infância e da juventude sem sentir a pobreza, sem inquietações familiares ou problemas de estudo e ao abrigo de contingências perigosas, como aconteceu, por exemplo, durante o serviço militar, aos 20 anos de idade, e durante a Grande Guerra", escreveu o futuro papa em seu diário, citado pelo cardeal Loris Francesco Capovilla, que foi seu secretário particular.

Papa bom. João XXIII, que é chamado de "o papa bom", sem demérito para papas anteriores e posteriores, tinha um rosto redondo e bonachão, bom humor constante e admirável facilidade de se aproximar das pessoas. Especialmente dos simples, do povo que sempre o atraía em Bérgamo e Veneza, assim como, mais tarde, na Praça São Pedro. Não era, porém, um homem despreparado para as funções que ocupou.

Depois de entrar para o seminário em Bérgamo, aos 12 anos, fez o curso de Filosofia e parte de Teologia nessa mesma cidade, até ser mandado para Roma, onde defendeu sua tese de doutorado, em 1904. Na banca examinadora, estava o padre Eugenio Pacelli, futuro papa Pio XII. Foi ordenado padre em 10 de agosto daquele ano e, cinco dias depois, celebrou a primeira missa em Sotto il Monte. Jamais esqueceu a terra natal e visitava a família sempre.

Em 1915, quando a Itália entrou na guerra, Roncalli foi convocado pelo Exército para servir na frente de batalha. Não chegou a ir para as trincheiras, mas foi capelão no comando de Bérgamo, onde deu assistência aos soldados feridos. O futuro papa era sargento desde 1901, quando fez o serviço militar em um regimento de infantaria. Gostou da vida de caserna, principalmente porque não teve de lutar, mas de atuar como sacerdote.

A missão diplomática na Bulgária, Turquia e Grécia aproximou Roncalli dos cristãos ortodoxos e contribuiu para a ênfase dada ao ecumenismo no Concílio Vaticano II. Em Atenas, o delegado apostólico deu assistência às vítimas dos nazistas, que haviam ocupado o território grego. Recorreu a Pio XII e conseguiu ajuda financeira do Vaticano. Os gregos, de maioria ortodoxa, ficaram admirados com o gesto do representante da Santa Sé, que era italiano e teoricamente um inimigo, pois a Itália era aliada da Alemanha.

O Concílio Vaticano II foi a grande obra do papa Roncalli, mas ele deixou sua marca também em duas encíclicas - Mater et Magistra (1961) e Pacem in Terris (1963) - fundamentais para a revolução que marcou a Igreja no século 20. Já doente, João XXIII inaugurou o Concílio em 11 de outubro de 1962 e acompanhou a primeira sessão, encerrada em 8 de dezembro. Convocou para setembro de 1963 a segunda sessão, que seria confirmada pelo papa Paulo VI.

João XXIII morreu em 3 de junho de 1963. Os bispos do Concílio pediram que ele fosse proclamado santo no encerramento da última sessão, em dezembro de 1965. Paulo VI não concordou, mas deu sinal verde para o início da causa de beatificação. Angelo Giuseppe Roncalli foi declarado beato em 2000, após o reconhecimento de um milagre atribuído à sua intercessão, a cura de uma freira vítima de câncer. Agora, Francisco dispensou a prova de novo milagre para a canonização.

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