Estadão
Estadão

João Paulo II ajudou a derrubar o comunismo e arrebanhou multidões

Natural de Wadowice, a 50 quilômetros de Cracóvia, na Polônia, onde foi arcebispo e cardeal, percorreu todos os continentes nos 26 anos e 5 meses em que chefiou a Igreja Católica

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2014 | 02h06

Karol Jozef Wojtyla era um homem de porte atlético e jovial, quando se ajoelhou e beijou a terra no Aeroporto de Brasília, em 30 de junho de 1980. Tinha 60 anos de idade e quase dois de pontificado. Nasceu em 20 de junho de 1920 e foi eleito papa em 16 de outubro de 1978. Era a primeira das três visitas que fez ao Brasil, um dos 132 países de um incansável roteiro em 104 viagens fora da Itália.

Natural de Wadowice, a 50 quilômetros de Cracóvia, na Polônia, onde foi arcebispo e cardeal, percorreu todos os continentes nos 26 anos e 5 meses em que chefiou a Igreja Católica. Nas duas primeiras viagens ao Brasil, em 1980 e 1991, foi a 23 cidades, incluindo todas as capitais e o Santuário de Aparecida.

João Paulo II era uma figura carismática e envolvente. Conquistava as pessoas com seu constante bom humor. Fazia piadas, gostava de trocadilhos, cantava com sua voz de barítono e improvisava tiradas surpreendentes, falando às multidões em sua língua. "Se Deus é brasileiro, o papa é carioca", brincou no Maracanã lotado, ao voltar ao Rio em 1997, para o Encontro com as Famílias.

A veneração por Wojtyla transbordou na semana de seus funerais, em abril de 2005, quando a multidão começou a pedir sua canonização. "Santo súbito!", gritavam milhares de fiéis no Vaticano. O coro se repetia após a eleição de Bento XVI, toda vez que o alemão Joseph Ratzinger citava o nome de João Paulo II, de quem fora fiel escudeiro como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Resposta imediata: o papa polonês foi beatificado em 2011 e está sendo canonizado agora.

A imagem de santo que culmina com a celebração deste domingo tem raízes na vida sofrida de Wojtyla, dos tempos de menino órfão em Wadowice e de seminarista clandestino na Polônia ocupada por nazistas até a resistência ao comunismo imposto pelos soviéticos após a Segunda Guerra. A auréola de santidade brilhou ainda mais a partir de 13 maio de 1981, quando o papa foi vítima de um atentado na Praça São Pedro. João Paulo II atribuiu à Nossa Senhora de Fátima, cuja festa se comemorava na data, o "milagre" de ter escapado da morte. Recuperado, visitou e perdoou na prisão o turco Mehmet Ali Agca, que havia atirado nele.

Lolek, como o papa era chamado pelos amigos, perdeu a mãe, Emília, em 1929, e o irmão médico Edmund em 1932. Em Cracóvia, para onde se mudaram, dividiu um apartamento com o pai, também Karol, oficial reformado do Exército, que morreu em 1941. "Aos 20 anos, perdera todos os que nesta vida tinha podido amar", disse mais tarde. Restavam os amigos, colegas de escola, companheiros de palco no teatro e operários de trabalho braçal em uma fábrica de produtos químicos.

Tanto em Wadowice quanto em Cracóvia, Lolek convivia com numerosos judeus. Muitos deles foram arrastados para a morte em Auschwitz, o campo de concentração vizinho de sua cidade, que visitou muitas vezes enquanto vivia na Polônia e, em junho de 1979, como papa. Em 1988, entrou em uma sinagoga em Roma, tendo sido o primeiro papa a ter esse gesto.

Política. Três meses depois de João Paulo II receber Mikhail Gorbachev no Vaticano, em dezembro de 1989, a Santa Sé estabeleceu relações diplomáticas com a União Soviética. Foi um passo adiante no combate ao comunismo, que contribuiu decisivamente para o fim da Cortina de Ferro.

Escreveu em dezembro de 1980 uma carta ao presidente Leonid Brejnev defendendo a soberania polonesa e, no mês seguinte, recebeu representantes do movimento Solidariedade, de seu amigo Lech Walesa, líder sindical que, após a redemocratização, seria eleito presidente. A luta contra o comunismo incluiu audiência com o presidente americano Ronald Reagan e a troca de correspondência diplomática com outros governos.

Quando se acentuaram, a partir dos anos 1980, as denúncias de abusos sexuais e de pedofilia cometidos por padres, o papa adotou medidas internas para punir os culpados, mas não os entregou à Justiça, como reivindicavam as vítimas e seus familiares. Ele foi acusado de omissão e, ao ser anunciada sua canonização, associações de defesa das vítimas pediram que o processo fosse cancelado.

No campo religioso, João Paulo II se aproximou de outras igrejas, fortaleceu o diálogo com os judeus e entrou em contato com os muçulmanos. João Paulo II manteve o programa de viagens apostólicas, de cunho predominantemente religioso, enquanto lhe permitiram as forças físicas. Sua última viagem foi ao Santuário de Lourdes, na França, em agosto de 2004. Fazia sentido essa peregrinação, pela intensa devoção que tinha a Maria. Totus tuus (Todo teu), o lema de seu escudo, era prova dessa devoção.

Em agosto de 2002, voltou pela última vez à Polônia. Celebrou missas para uma multidão em Cracóvia, rezou no Santuário de Kalwaria e, a caminho do aeroporto para regressar a Roma, sobrevoou de helicóptero a sua cidade natal, Wadowice. Era a despedida. Milhares de pessoas acenavam e choravam na praça da igreja matriz.

Wojtyla morreu aos 84 anos, no início da noite de 2 de abril de 2005.

Havia sido internado para ser submetido a uma traqueostomia para poder respirar, mas teve alta no hospital em 13 de março para continuar o tratamento no Vaticano. No Domingo da Ressurreição, 27 de março, deu a bênção Urbi et Orbi, da janela de seus aposentos, mas não conseguiu falar. Nos últimos dias de vida, alimentava-se por sonda.

"Deixai-me ir para o Senhor", murmurou João Paulo II, antes de morrer. Era o primeiro domingo depois da Páscoa, festa da Divina Misericórdia, dia escolhido por Francisco para a canonização.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.