Joaninha, o Morro do Bumba do ABC

Ex-aterro foi ocupado por 2 mil famílias que temem explosões e desmoronamentos

Eduardo Reina, O Estado de S.Paulo

13 Abril 2010 | 00h00

O Sítio Joaninha é uma área invadida antigamente ocupada pelo lixão do Alvarenga, desativado há 29 anos, na divisa de São Bernardo Do Campo e Diadema, região do ABC. São pelo menos 2 mil barracos à beira do aterro, que fica ao lado da Represa Billings. A chuva contínua faz minar água do solo em meio ao lixo. Um perigo que deixa a população local com muito medo, principalmente depois do ocorrido no Morro do Bumba, em Niterói.

"A gente tem mais medo de explosão do que da água. Mas já teve desmoronamento do morro ai na frente. Desceu muito barro", conta José dos Santos, que mora há 14 anos no Joaninha. "É só andar no meio do mato para ver a fumaça subindo do meio da terra. Há oito meses, uma explosão derrubou o barraco de um senhor mais ali embaixo. Sorte que ninguém morreu", disse Edivaldo Santos dos Reis Souza, há 23 anos no local.

As prefeituras de São Bernardo e Diadema alegam que monitoram a localidade e há projetos de transformação da área do aterro desativado em um parque e numa usina geradora de eletricidade, e que famílias deverão ser removidas (leia nesta página).

Gás. Nesses anos sem receber lixo, a natureza se encarregou de cobrir o chão com vegetação, o que dá algum suporte para evitar deslizamentos. Existe até árvores. Mas o gás metano oriundo da decomposição é um risco diário por causa das explosões.

Há pelo menos dez anos um laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) recomendava a retirada dos moradores da área considerada de risco. O parecer dizia que a "ocupação irregular no entorno da área do aterro já é significativa e apresenta tendência de rápida evolução, exigindo rápida intervenção da prefeitura, tanto para impedir a ocupação como para remover aquelas habitações instaladas em áreas que impliquem riscos".

No alto do morro, perto de um campo de futebol, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), ligada à Secretaria Estadual do Meio Ambiente, instalou canos no chão, que funcionam como condutores do gás gerado no subsolo. Nessa mesma região é possível ver vapor subindo de buracos no solo.

Chorume. O antigo lixão foi instalado em um terreno particular. Recebia diariamente cerca de 700 caminhões de lixo. Formou-se uma enorme montanha, com um pequeno vale ao meio. O chorume - líquido da decomposição dos detritos - contaminou o lençol freático e escorre pelo subsolo em direção à Billings, localizada a 400 metros do local.

Desesperançados, os moradores reclamam do que chamam de esquecimento do poder público. "É só promessa, principalmente nas eleições. Mas não fazem nada com a gente", afirma Teresa Cristina Fernandes, que mora na Estrada da Divisa, uma rua de terra encharcada de água localizada na borda do antigo lixão.

"Todo mundo tem medo que aconteça um deslizamento, uma explosão. Mas não temos o que fazer nem para onde ir", fala Alessandra Costa Macedo Ferreira. Ela conta que há dias que seus filhos sequer conseguem ir à escola devido ao barro nas ruas. "E se você chama a ambulância do Samu, eles nem sobem", critica.

Benedito Antonio de Souza diz que comprou sua casa no local há 20 anos. "Tenho o contrato de compra. Temos cadastro na prefeitura, mas somos discriminados", afirma. Souza construiu seu barraco próximo à Estrada da Divisa e conta que os problemas sempre existiram. "Chove e a gente fica com muito medo", diz.

Saúde. Um lixão desativado recoberto por terra só causa problemas de saúde se as condições de higiene forem inadequadas, com a associação de vários fatores como chorume, lixo na superfície do solo e animais, como ratos e insetos. Segundo o médico Juvêncio Furtado, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, é uma questão de saúde pública. "O lixo enterrado corretamente não transmite doenças", afirma. Se isso não é feito, os moradores estão expostos a doenças gastrointestinais, hepatites e diarreias infecciosas.

Para lembrar

O lixão do Alvarenga começou a ser formado em 1972 em uma área particular de 40 mil metros quadrados na divisa de São Bernardo do Campo e Diadema. Cerca de 140 famílias de catadores viviam do lixo no local. O lixão foi desativado no dia 16 de julho de 2001. No ano seguinte, as prefeituras anunciaram um plano para recuperar a área, com a construção de um parque público, mas nada foi feito até agora.

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