Janelas matam bilhões de pássaros

O pássaro estrebuchava perto da janela, o sangue escorria pelo bico. Era mais um que morria ao colidir com o vidro do meu escritório. São dezenas de joão-de-barro, sabiás e andorinhas que já morreram tentando atravessar o vidro invisível. Imaginava-se que fossem milhares a cada ano. Foi um susto descobrir que bilhões de pássaros morrem todos os anos ao se chocarem com janelas de vidro.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

08 Março 2014 | 02h01

Faz décadas que os cientistas estudaram a colisão de pássaros com edifícios. Já sabemos que o número de colisões aumenta com o aumento da área coberta por vidro, com o aumento da vegetação nos arredores dos edifícios, com a quantidade de luz refletida pelas janelas e, escute só, com a presença de locais de alimentação de pássaros próximos à construção. Mas o número exato de vítimas nunca havia sido estimado de maneira cuidadosa. Foi isso que os cientistas fizeram agora.

Primeiro os cientistas identificaram todos estudos que estimavam o número de colisões em grandes áreas urbanas ou comunidades rurais. Foram também identificados estudos em cidades, bairros e prédios específicos. Após excluir estudos muito pequenos, ou gerados como respostas a demandas judiciais, sobraram 23 estudos. Conjuntamente eles descrevem 92.869 mortes de pássaros por causa das colisões com construções.

Alguns estudos envolviam somente prédios baixos, como um em Rock Island, em Illinois, nos Estados Unidos, onde foram monitorados 20 edifícios. Neles a taxa de colisão foi de 2,6 pássaros por prédio por ano. Em Chicago, em um único edifício monitorado, entre 1978 e 2012, foram registradas, em média, 1.028 mortes de pássaros por ano. Um terceiro estudo monitorou 1.165 casas sendo que cada casa, na média, causou 0,85 mortes por ano.

Combinando os dados desses 23 estudos, com dados sobre a densidade de pássaros em cada município dos EUA, e o número e tipo de construção existente em cada cidade, vila ou vilarejo nos EUA, os cientistas puderam estimar o número de pássaros que morrem por ano por causa desse tipo de colisão em todo os EUA.

Essa análise cuidadosa permitiu que os cientistas estimassem com 95% de certeza que o número de pássaros mortos a cada ano nos EUA está entre 365 milhões e 988 milhões. Em outras palavras só existe 5% de chance de o número real ser menor que 365 ou maior que 988 milhões. É um número altíssimo. Entre as causas de mortes de pássaros, a única provocada pelo homem que registra mais casos são os gatos domésticos (1 bilhão de vítimas por ano). Agrotóxicos, caça, e geradores eólicos não chegam nem perto de causar esse tipo de mortalidade.

Os dados permitiram estimar o número aproximado de pássaros mortos em edifícios de até 3 andares (253 milhões/ano), casas e edifícios de até dois andares (339 milhões/ano) e grandes prédios (508 mil/ano). Ou seja, prédios altos, nas grandes cidades, contribuem menos que os baixos e as casas.

Além de determinar o número de pássaros mortos, foi possível identificar as espécies que morrem com mais frequência. O interessante é que, para cada tipo de edifício, a espécie de pássaro que é morta com mais frequência é diferente. Outro dado é que algumas espécies colidem com uma frequência maior que a esperada, como o beija-flor, enquanto outras raramente atingem uma janela, como patos e marrecos.

Finalmente os dados permitiram identificar mais de 20 espécies de pássaros cujas populações estão diminuindo, e que podem correr o risco de extinção, entre os pássaros que morrem frequentemente em colisões com edifícios. Se esses resultados se confirmarem é fácil imaginar que no mundo devem morrer bilhões de aves a cada ano por causa de colisões com construções, um número da mesma ordem de magnitude da população de seres humanos que vivem no planeta.

Fiquei pensando. Será que não seria melhor fechar minha janela preferida e ir ler na varanda? Afinal quantas vidas de pássaros vale cada metro de janela envidraçada?

É BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: BIRD-BUILDING COLLISIONS IN THE UNITED STATES: ESTIMATES OF ANUAL MORTALITY AND SPECIES VULNERABILITY. THE CONDOR VOL. 116 PAG. 8 2014

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