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Interior vai ganhar sete clínicas anticrack

Ricardo Brandt - O Estado de S. Paulo

02 Junho 2014 | 20h 50

Governo do Estado de São Paulo anuncia criação de unidades baseadas no modelo de Botucatu, que agrega trabalho social ao sistema de saúde de recuperação de viciados

SÃO PAULO - O governo de São Paulo vai construir mais sete clínicas, como a inaugurada em Botucatu, em novembro do ano passado, para o tratamento de dependentes de crack no interior do Estado. Considerada modelo, a unidade agrega trabalhos sociais ao sistema de saúde de recuperação dos viciados. “É a maior vitrine do Estado, é uma clínica absolutamente moderna”, afirmou o coordenador do Programa Recomeço e articulador da política anticrack do governo paulista, o psiquiatra Ronaldo Laranjeira.

“Aprendemos que não basta fazer só a desintoxicação. A internação é só o começo”, disse o especialista. A unidade, que serve para internações breves e desintoxicação, oferece recolocação social aos dependentes. No total, são 76 vagas. A informação de onde serão construídas as sete clínicas não foi divulgada. 

O Estado visitou a clínica durante a produção da reportagem sobre o avanço da droga nos rincões do sossego paulista. A edição desta segunda-feira mostrou que 30% dos municípios do Estado declararam ter alto problema decorrente do uso de crack. Os relatos foram feitos à Confederação Nacional dos Municípios (CNM) por 194 das 645 cidades de São Paulo. 

Robson Fernandjes/Estadão
Crack invade interior de São Paulo

“Não estamos fazendo só o quadrado da saúde. Estamos experimentando outras áreas, porque o problema da droga é de todo mundo. A saúde faz um pedaço da história, a segurança pública, outro pedaço”, disse a diretora da unidade, Janice Megid. Segundo a especialista, o problema do crack cresce em ritmo “galopante” no interior.

A ideia do hospital de Botucatu surgiu entre os médicos da Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde está a unidade. Antes da clínica, eles ofereciam 30 leitos para dependentes químicos em uma região onde vivem 1,7 milhão de habitantes. 

O Hospital das Clínicas da Unesp havia aprovado a construção de um manicômio judicial para menores por causa da repercussão do caso Champinha - Roberto Aparecido Alves Cardoso, em 2003, na época menor de idade, matou o casal Felipe Silva Caffé, de 19 anos, e Liana Friedenbach, de 16, em Embu-Guaçu. Os médicos alegaram que o projeto não tinha demanda e a verba foi realocada para a construção da unidade-modelo para dependentes.

“Conseguimos transformar esse projeto em uma unidade para dependência química. As celas eram com placas de aço e conseguimos baratear o projeto e humanizar com piscina, ambulatório, quadra”, explicou Janice. Foram investidos R$ 15,4 milhões. Não há locais nem data para as novas unidades. 

Internação. Para Janice, “internação tradicional” para dependente químico não funciona. “Eles vão ficar 15 dias em um lugar internados e daí você abre a porta, dificilmente eles vão parar lá no serviço encaminhado. Sozinhos eles não vão.” 

Essa realidade é confirmada por internos e usuários em tratamento. A compulsão de uso e ambientes propícios favorecem as recaídas. “A gente está engatinhando ainda no tratamento do dependente químico. Eles têm dificuldade de acessar postos de saúde, unidades básicas. A gente tem de ir ao encontro deles”, disse Janice.

Em Ibitinga, André (nome fictício), de 29 anos, procurou a rede de saúde. “Eu vim buscar internação, para mim resolveria, mas não tem vaga. Se eu vir alguém na rua ou se eu beber, vou acabar usando”, afirmou.

Laranjeiras, que acredita que o crack avança como uma epidemia no Estado e em todo o País, afirmou que bons tratamentos existem, mas o acesso não é universal. “Estamos tentando expandir a rede para que a população do Estado de São Paulo possa receber a melhor assistência, esse é o desafio. O Estado está criando essa rede, talvez seja o único Estado do Brasil fazendo isso.”

A internação tem sido defendida no Estado. Em 2011, eram 482 leitos custeados pelo governo; em 2012, eram 1.160. Hoje, segundo Laranjeira, são 3 mil.

Compulsória. O especialista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes (Proad), Dartiu Xavier da Silveira, afirmou que o risco é a defesa das internações forçadas. “A internação involuntária como política pública é um desastre. Quando ele sai da internação, ele volta para a vida dele, para os problemas, ele recai, essa é a regra. Mais de 90% deles recaem.”

Para ele, só é admitida a internação involuntária em situação excepcional - surto psicótico ou riscos a terceiros. “Mas essa faixa representa menos de 5% das indicações.” Laranjeira afirmou que, das 3.178 internações feitas pelo serviço de triagem da capital (Cratod), 2.850 foram voluntárias. “Tiramos dez dependentes por dia da Cracolândia por vontade própria.”