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Incêndio do Joelma matou 187 em São Paulo

Edison Veiga - O Estado de S. Paulo - O Estado de S.Paulo

01 Fevereiro 2014 | 02h 04

Prédio foi recuperado e rebatizado como Edifício Praça da Bandeira, mas continua a inspirar histórias; administração evita falar sobre situação atual

São Paulo viveu seu inferno há exatos 40 anos, quando o maior incêndio da história da cidade matou 187 pessoas e deixou outras 300 feridas no Edifício Joelma, na Avenida 9 de Julho, região central.

O prédio, originalmente erguido em 1971, foi recuperado, rebatizado de Edifício Praça da Bandeira e reinaugurado em 1978. Apesar do passado triste - e de várias lendas de assombrações -, está praticamente todo ocupado hoje em dia, por escritórios de contabilidade, engenharia e advocacia e empresas de call center, entre outras. Ali também funciona a sede do PSD, partido do ex-prefeito Gilberto Kassab - o PSDB do governador Geraldo Alckmin também já manteve comitês de campanha no prédio.

Sócio-proprietário de uma empresa de contabilidade que desde 2005 funciona no Edifício Praça da Bandeira, Vicente Bersito Neto ri da história que o levou para o ex-Joelma. "Acredite: o que me trouxe para cá foi um incêndio", conta. Seu escritório anterior era no Edifício CBI Esplanada, onde funciona o Instituto Fernando Henrique Cardoso, no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo. Em janeiro de 2005, entretanto, uma falha no sistema elétrico causou um incêndio ali - 68 pessoas foram hospitalizadas por intoxicação, sem gravidade. "O prédio acabou interditado por um tempo e ficamos sem escritório do dia para a noite. Então, contatei um corretor, pedindo outro imóvel urgente", recorda-se.

O corretor - até hoje não se sabe se por ironia ou acaso - ofereceu-lhe duas opções. A primeira, no Praça da Bandeira; a outra, no Andraus - também no centro, onde um incêndio em 1972 deixou 168 mortos e 330 feridos. Vicente conta que a única preocupação foi com condições de fuga. "Porque a memória que trago do outro prédio era do desespero que foi demorar 25 minutos para conseguir evacuá-lo, sem saber direito a dimensão do incidente", diz. Ele se mostra satisfeito com as condições de segurança encontradas hoje no ex-Joelma.

Tabu. Se Vicente leva com bom humor essas histórias, o mesmo não se repete na atual administradora do prédio. O Estado tentou agendar uma entrevista com os responsáveis na quarta, justamente para saber das condições atuais e do que mudou em 40 anos. "Ninguém aqui está autorizado a dar entrevista, principalmente porque a imprensa só fala da gente para se lembrar dessa tragédia", disse uma funcionária.

Para os atuais ocupantes do prédio, a localização parece ser o maior trunfo. "Enumero como vantagens a mobilidade, a proximidade com o terminal de ônibus da Praça da Bandeira, com estações de metrô de três linhas, estacionamento no edifício, segurança contra incêndio. E o edifício tem conjuntos comerciais bem iluminados e ventilados", afirma Carlos Henrique Mazete, gerente de uma empresa de engenharia com sede ali desde 2009.

Mas, entre tantas vantagens, lendas de assombrações persistem. Há quem jure que isso ocorre porque no século 19 ali teria funcionado um pelourinho. Durante o incêndio de 1974, 13 pessoas tentaram escapar por um elevador e não conseguiram. Seus corpos, não identificados, foram enterrados lado a lado no Cemitério São Pedro, na Vila Alpina. Em 1948, uma casa que ficava no mesmo terreno foi palco do Crime do Poço: um professor de 26 anos matou a mãe e as duas irmãs e escondeu os corpos no poço no quintal. Quando a polícia começou a escavar, o jovem pediu para ir ao banheiro. Matou-se com um tiro no coração.