IMAGENS DOS ANOS 1960 AINDA SÃO VIVAS

Mesmo quem não perdeu casa ou parente nas enchentes que atingiram o Rio tem histórias para contar. Em 1967, o ex-metroviário Heitor Silveira, hoje com 63 anos, morava em Laranjeiras, na Rua General Glicério. E da janela de casa viu o desabamento de uma casa e dois prédios, nos quais morreram 200 pessoas.

, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2010 | 00h00

Silveira lembra que a primeira construção a desabar foi o sobrado em que morava um engenheiro, na Rua Belisário Távora. "Ele foi orientado a sair, porque havia risco de uma pedra rolar. Ele se recusou. A pedra caiu e atingiu a casa. A força foi tão grande que a filha mais nova, de uns 13 anos, foi arremessada pela janela do segundo andar. Sobreviveu."

Silveira ouviu o que parecia uma trovoada. Quando foi para a janela, assistiu à queda de "um castelo de cartas". "A casa derrubou um prédio de quatro andares, que derrubou um de oito andares - cinco deles abaixo do nível da rua. Paulo Roberto, sobrinho de Nelson Rodrigues, era meu amigo. Ele e a família inteira morreram ali".

O ex-metroviário lembra que muita gente foi salva. "Minha professora de inglês, dona Glória, morava no oitavo andar. Só quebrou uma perna". Durante um mês os vizinhos acompanharam a limpeza da rua. Não se voltou a construir na área.

O veterinário Henrique Cockell Andrade, de 56 anos, era um adolescente quando o bairro em que morava, Santa Teresa, ficou isolado durante 15 dias de chuva, em janeiro de 1966. "Caiu casa, prédio. Minha mãe enchia garrafas térmicas com café e chocolate quente para levar para os bombeiros. Numa tarde, vi cadáveres na calçada."

Sem ter como sair, Henrique e a irmã, Elizabete, passavam as tardes na janela do segundo andar de um prédio na Rua Santa Cristina, única do bairro que ainda não havia sido interditada. "Víamos os caminhões passarem carregados de corpos. Os rabecões não davam vazão."

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