Imagens de uma Brasília submersa

Fotógrafo do ''Estado'' mergulha no Lago Paranoá e registra a vida e a história que as águas engoliram e criaram nos 50 anos da capital

Rui Nogueira, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2010 | 00h00

No princípio era um Rio Paranoá, uma fazenda e seus peões. Depois, missões de homens sabidos disseram, no fim do século 19 e meados do 20, que a cidade podia ficar no coração do País, mas precisaria de um "pulmão líquido" para aplacar os seis meses de secura desértica do Planalto Central. Foi assim, em riscos gerais, que nasceram os quase 50 km² de água do Lago Paranoá, inaugurados no dia 12 de setembro de 1959, aniversário de Juscelino Kubitschek - sete meses antes de Brasília.

Artifício de engenheiros e operários, o lago juntou histórias, lendas e tragédias na depressão formada pelos chapadões do Gama e do Paranoá. Juntou também muitas casas e esgoto suficiente para ficar ameaçado de morte e precisar de US$ 250 milhões para voltar a ser, no início deste século, apenas e tão somente um lago com água do rio e das chuvas, velas e lanchas, remos e remadores, tucunarés, tilápias, carpas, biguás e garças, marrecas e até capivaras em duas das suas três ilhas.

Ao longo de 2009, o Paranoá ganhou outro assíduo frequentador: um legítimo candango que, depois de um mergulho e um encontro casual com uma imensa boneca de vodu, no fundo do lago, decidiu presentear a cidade cinquentenária com um documentário fotográfico sobre "a praia" brasiliense - com até 40 m de profundidade.

Beto Barata, 41 anos, fotógrafo da sucursal do Estado, é o autor de "Brasília Submersa", um projeto cultural aprovado e integrado pelo Governo do Distrito Federal às comemorações dos 50 anos da capital.

A partir do mergulho inicial, em março do ano passado, o fotógrafo não parou mais. Depois da boneca de vodu, passaram pelas lentes profissionais de Barata postes, paredes, portas e porteiras dos galpões dos operários que construíram a barragem do Paranoá. Fez o registro emocionado da lápide do mergulhador Cristiano Santos, morto num acidente, em 2002, no lago. Os amigos o homenagearam com um "túmulo" no fundo do Paranoá. Silenciosamente, Barata já passeou pela Kombi que foi parar lá dentro e por lá ficou.

A despoluição trouxe o lazer de volta e celulares e relógios caríssimos que caíram e caem das lanchas dos ricos. Nas próximas semanas, Barata vai terminar a empreitada documentando a Vila Amaury, outro acampamento de operários que a cheia do lago engoliu.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.