Igreja vai exigir demarcação de terra indígena, afirma bispo do Xingu

D. Erwin Kräutler diz que artigos da Constituição que determinaram a demarcação foram elogiados em todo o mundo na época, em 1988, mas até agora País não atingiu nem metade da meta

José Maria Mayrink, ENVIADO ESPECIAL/O Estado de S. Paulo

16 Abril 2015 | 23h21

APARECIDA - O bispo prelado de Xingu, no Pará, d. Erwin Kräutler, disse nesta quinta-feira, 16, que a Igreja vai exigir, sem se cansar, o cumprimento dos artigos da Constituição que, em 1988, determinaram a demarcação das terras indígenas, uma decisão que, na época, mereceu elogios em todo mundo, mas que até agora não atingiu nem metade da meta.

"O último governo, ou seja, o primeiro mandato de Dilma Roussef, não fez nenhuma demarcação, porque a presidente da República é refém do agronegócio, das mineradoras e hidrelétricas que expulsam os índios, ribeirinhos, quilombolas e imigrantes para explorar suas terras, especialmente na Amazônia", afirmou o bispo.

D. Erwin, que dirige a prelazia (diocese em formação) há 33 anos e preside o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), falou à imprensa na assembleia-geral da entidade, em Aparecida. Ameaçado de morte por causa de suas reiteradas denúncias de injustiça, violência e assassinatos em sua região, ele está 24 horas por dia sob proteção da Polícia Militar, em casa e durante viagens.

"Altamira, sede da prelazia, vive situação catastrófica, por causa da construção da usina de Belo Monte, no Rio Xingu, porque metade da cidade será afundada e outra metade ficará à margem de uma represa morta, sem escoamento para a água", disse d. Erwin. Ele prevê que a situação se agravará ainda mais, porque outros represamentos serão feitos, Xingu acima, para construção de mais usinas.

O bispo insiste que o governo deveria ouvir os povos atingidos pela hidrelétricas, que estão sendo expulsos de suas terras e se queixa da falta de diálogo. "Lula me recebeu duas vezes, mas falou o tempo todo sozinho, defendendo seu peixe", informou d. Erwin. Segundo ele, o único presidente que fez demarcações e levou o problema a sério foi o presidente Itamar Franco.

D.Erwin afirmou que a Igreja tem o dever de lutar em defesa de todos os habitantes das regiões prejudicadas pela ambição de empresas e pelo descaso do governo. "Falo em nome de todos os atingidos e não apenas dos fiéis que vão à missa na catedral", disse o bispo.

Mais conteúdo sobre:
CNBB Igreja Católica

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.