Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Ibirapuera

O parque mais querido da cidade abre depois da festa

Juliana Ravelli, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2015 | 16h00

O imponente Dodge verde do tio parou na frente de casa. Era sempre uma festa quando ele e a tia chegavam. Aquele, entretanto, seria um dia diferente. A visita não ficaria restrita ao almoço farto e ao bom papo com a família. Em 21 de agosto de 1954, Cecilia Marisa Cifú, de 69 anos, entrou no carro com “cheirinho bom de couro” em direção àquela que se tornaria a sua melhor memória da infância: a inauguração do Parque do Ibirapuera, na zona sul da capital. 

“Meus tios haviam combinado com meus pais, mas eu não sabia aonde iríamos. Foi surpresa chegar ao parque.” Na época, a dona de casa tinha 9 anos. Recorda o movimento, as pessoas “bonitas e arrumadas” e a gritaria. “Nunca tinha visto nada tão amplo, tão cheio de cor.” Naquele dia, ela recebeu aval dos pais para se fartar de algodão-doce, pipoca e sorvete. Passou mal de tanto comer. 

Com projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer e paisagístico de Otávio Augusto Teixeira Mendes, o Ibirapuera foi chamado de “o mais moderno logradouro público do mundo”. Antes de nascer, existia um pântano na região. O plantio de árvores – eucaliptos, principalmente – e a drenagem da água tornaram o projeto possível. 

A previsão era inaugurá-lo na festa dos 400 anos da cidade, em janeiro, mas as obras atrasaram. Quando abriu as portas, em agosto, o público também pôde conferir a Exposição do 4.º Centenário, com parque de diversões, mostras de Estados brasileiros e de 28 países, além de um museu de cera. Para Cecilia, as figuras pareciam vivas, algumas tão terríveis que “causariam pesadelos em muita gente”. Após conferi-las, resolveu perguntar a um guarda se ainda tinha muita coisa para ver. Os pais e os tios começaram a gargalhar. Só aí ela percebeu: o guarda também era de cera. 

Ao longo da vida, Cecilia testemunhou outros acontecimentos históricos da cidade. Chorou com o fim do bonde, em março de 1968 (leia mais na página 9). Em outubro do mesmo ano, sentiu pavor na Batalha da Maria Antonia. Ela estava em uma ótica, no centro, quando o conflito entre alunos da Universidade de São Paulo (USP) e do Mackenzie começou. 

Mas de tudo o que viu e viveu, a inauguração do Ibirapuera ainda ocupa um canto especial no coração. O evento foi um alento para a menina que, um ano antes, havia enfrentado meses de choro e tristeza pela doença e morte da avó. “Foi a primeira festa após um período triste.” 

Cecilia voltou ao parque várias vezes durante a juventude, depois de casada e com o filho. “É especial. Uma referência para o paulistano. O tempo passou e o Ibirapuera se tornou um dos ícones de São Paulo.”

Em seis décadas, o parque recebeu alguns dos mais importantes espetáculos e exposições da capital. Hoje, abriga 494 espécies de plantas e 218 de animais. Até 90 mil pessoas visitam o local por dia, nos fins de semana e feriados. Em 2005, enfim ganhou o Auditório do Ibirapuera, única obra de Niemeyer que ainda não havia saído do papel.

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