'Hoje há uma revolta popular que ia acontecer mesmo sem a gente'

Militante diz que situação continuará grave enquanto houver repressão e só prefeito e governador podem pará-la

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

13 Junho 2013 | 02h07

O estudante Caio Martins, de 19 anos, da Faculdade de História da Universidade de São Paulo (USP), é um dos porta-vozes do Movimento Passe Livre (MPL), protagonista das manifestações nas ruas. Ontem ele falou sobre o protesto que deixou um rastro de vandalismo na cidade.

Qual o balanço dos protestos?

Começou por volta das 17 horas e desceu a Consolação. A ideia inicial era fechar a Paulista, mas a PM direcionou para a Consolação. O ato estava bonito e tranquilo, com cerca de 10 mil pessoas. De lá, seguiu para o Parque D. Pedro, quando foi reprimido pela Força Tática com bomba de gás lacrimogêneo e estilhaço, tipo de arma proibida. Deveriam jogar a 30 metros e eles jogam no meio.

Mas a PM foi acuada e houve princípio de incêndio a ônibus...

A manifestação queria entrar no terminal por ser o maior terminal da América Latina. No entanto, foi vetado. Quando a manifestação é reprimida, o ato organizado se desorganiza e assume seu lado violento, que mais saiu nos jornais, que foi a destruição.

Vocês combinaram o quebra-quebra para chamar a atenção para a causa?

Não. Depois da repressão, o esforço era para reagrupar. Se não houvesse esse esforço, seria bem pior. Quando começa a repressão, a manifestação é outra. Tem caráter diferente que aí pode descambar para a violência. O Passe Livre não é dono da manifestação. Tem vários grupos no meio que a gente não controla.

Mas vocês não provocam a ação da PM bloqueando as ruas na hora do rush? A violência faz parte da estratégia politica?

Não é isso. O movimento toma as avenidas como protesto. Isso se chama passeata, ferramenta histórica para reivindicar os direitos. Em São Paulo, ganha caráter quase irônico. São Paulo não anda e já é parada. A gente luta por mais mobilidade. Quando você fecha rua, explicita o travamento de todo dia. Não sei o que contribui para que se destruam bancos, mas isso só deixa clara a situação que o aumento deixou na cidade. As pessoas estão revoltadas com o aumento.

Quase ocorreu uma tragédia na terça. Vocês não pensam em adiar o ato de hoje?

Está fora do controle. Hoje há uma revolta popular que ia acontecer mesmo sem a gente. Se tem alguém que pode frear a revolta, são o prefeito e o governador. Quando eles decretaram o aumento, instauraram a revolta popular. A situação está ficando grave e vai continuar enquanto a polícia reprimir.

O que você pode dizer para o manifestante que fez quebra-quebra ontem?

A gente não quer que as pessoas quebrem as coisas. Mas a gente não é liderança nem dono do movimento. Tem um certo respaldo porque tem história de luta em várias cidades e em São Paulo. Só que uma coisa é o Movimento Passe Livre. A outra é a reivindicação contra aumento, que ganhou uma dimensão muito maior.

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