Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

Heróis surgidos das tragédias de 2011

Em meio a episódios tristes que marcaram o ano, o Estado procura neste Natal relembrar pessoas que fizeram a diferença, salvando alunos em escolas e flagelados da chuva

O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2011 | 03h03

Definir um herói não é tarefa das mais fáceis. Os dicionários trazem uma dezena de significados. Entre eles, está o da figura notável por sua coragem, feitos incríveis, generosidade e altruísmo. Por esse motivo, ganha admiração e atenção.

Já ao apresentar uma história fica mais fácil definir o herói. Em casos de tragédias, como a provocada pela chuva na região serrana do Rio, em janeiro, e o ataque aos estudantes de Realengo, em abril, quem evitou mais mortes ganha o título.

Em outros casos, a admiração em 2011 foi conquistada com campanhas que fizeram parte da sociedade mudar a forma de pensar. Caso dos amigos do administrador Vitor Gurman, que não deixaram a morte em um acidente de carro causado por uma pessoa embriagada ficar impune.

Com 18 anos de profissão, o PM Márcio Alexandre Alves, de 38, participava de uma rotineira blitz de trânsito, em Realengo, na zona oeste do Rio, em 7 de abril, quando ouviu o pedido de socorro de dois alunos ensanguentados em fuga. Correu até a Escola Tasso da Silveira, em meio aos sons de gritos e tiros. Ficou diante do atirador Wellington Menezes e baleou o assassino, que depois se matou. Hoje, segue sua rotina no Batalhão de Polícia Rodoviária - onde foi promovido a segundo-sargento.  / Pedro Dantas

Os jovens contra as mortes no trânsito

Carros possantes, em alta velocidade, alguns dirigidos por motoristas embriagados, deram a sensação de que sair à noite em São Paulo era uma roleta-russa. O trânsito se consolidou neste ano como a principal causa de mortes violentas no Estado, ultrapassando os homicídios.

Em julho, o administrador Vitor Gurman, de 24 anos, morreu atropelado na Vila Madalena, na zona oeste. Em setembro, Míriam e Bruna Baltresca, mãe e filha, foram atingidas por um carro em alta velocidade na saída do Shopping Villa-Lobos.

Jovens diretamente envolvidos com a tragédia decidiram agir. O administrador Heitor Bonadio, de 25 anos, foi um deles. Com amigos que estudaram com Gurman, organizou uma série de mobilizações para despertar a discussão sobre a violência no trânsito. Criaram o movimento Viva Vitão. Pela internet, organizaram protestos no Parque do Ibirapuera, na Rua Augusta e na Avenida Paulista. Em um sábado à noite, 500 pessoas vestidas de branco e com velas andaram pelas ruas da Vila Madalena. "A internet ajuda. Mas na vida real a situação é mais difícil e não é tão fácil mobilizar", diz Bonadio.

Rafael Baltresca, filho e irmão de Míriam e Bruna, fundou o grupo Não Foi Acidente, que coleta assinaturas para um projeto de lei para endurecer as penas dos motoristas culpados por mortes no trânsito. Já conseguiram 180 mil assinaturas. / Bruno Paes Manso 

O PM que recusou a propina 

A guarnição do Batalhão de Choque que prendeu o chefe do tráfico na Favela da Rocinha, na zona sul do Rio, na madrugada de 10 de novembro, não se intimidou com as bravatas do falso cônsul do Congo e se negou a aceitar propina de R$ 20 mil para liberar o traficante Antônio Bonfim Lopes, o Nem. Comandados pelo tenente Disraeli Gomes Figueiredo e Silva, de 35 anos, 11 homens abordaram e cercaram o Corolla preto cujo porta-malas abrigava um dos criminosos mais procurados do País.

A persistência melhorou a imagem da polícia, abalada no dia anterior com a vexatória prisão de policiais na escolta de traficantes. Todos os policiais continuam lotados no mesmo batalhão que ainda ocupa a favela. Os advogados que tentaram tirar Nem da favela foram presos. / P.D. 

A corda no meio da enxurrada

Com uma corda nas mãos, dois jovens de São José do Vale do Rio Preto (RJ) salvaram a vida de uma senhora durante a tragédia da região serrana, no início do ano. Daniel Lopes Cavalcanti e Gilberto Branco Faraco, primos, refugiaram-se no telhado do prédio onde moravam.

Do alto, viram a mulher a ponto de ser levada pela força das águas. "Não tínhamos muito ideia de como fazer, fomos no susto", disse Daniel. Eles encontraram duas cordas e as jogaram. A primeira se perdeu na enxurrada. A outra caiu perto da mulher, que conseguiu se segurar. Segundos depois, ela estava com eles no telhado, em segurança. "Três dias depois, fomos saber que as imagens estavam rodando o Brasil", disse Gilberto. / Eduardo Bresciani 

O 'anjinho' da região serrana 

Usar o seu trabalho do dia a dia para salvar vidas fez do microempresário Wallace dos Santos Machado um verdadeiro herói em sua cidade. Ele tem um carro de som e ganha a vida fazendo anúncios pelo município de Areal, na região serrana do Rio. No dia 12 de janeiro, um episódio mudou radicalmente sua vida e a de centenas de famílias do município de 11 mil habitantes.

A prefeitura foi avisada pela Defesa Civil que as comportas de uma barragem próxima seriam abertas, por causa das fortes chuvas na região. Com isso, o Rio Piabinha, que corta a cidade, ia transbordar e as consequências poderiam ser gravíssimas. A prefeitura pediu a Wallace que usasse seu carro de som para avisar os moradores do perigo iminente. "Era um dia de sol, então tinha de ter o alerta. A prefeitura me acionou e eu fui para a rua avisar o que estava acontecendo. De todas as sete cidades da nossa região, somente em Areal não morreu ninguém por causa da enchente", conta o microempresário.

Depois do episódio, Wallace até mudou de nome na cidade. Para os moradores, ele agora é o "Anjinho". "O pessoal me chama de anjinho agora. Aonde eu vou, o pessoal está sempre lembrando o que aconteceu". / E. B.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.