Marcio Fernandes/Estadão
Marcio Fernandes/Estadão

Haitianos se dizem 'iludidos' com falta de carteira de trabalho

Ministro Manoel Dias havia prometido que documentos seriam emitidos imediatamente, mas posto de atendimento frustrou refugiados

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

29 Abril 2014 | 14h26

Atualizada às 20h43

SÃO PAULO - A chegada de um posto do Centro de Apoio ao Trabalhador (CAT), que faz a intermediação entre empregadores e candidatos a vagas, que foi instalado na Pastoral do Migrante, no Glicério, região central da cidade, acabou por frustrar parte dos cerca de 200 haitianos que estão instalados ali por falta de outro lugar. O motivo: eles diziam acreditar que a van da Prefeitura faria a emissão da carteira de trabalho, documento exigido pelos empresários brasileiros. A falta dela vem inviabilizado a colocação profissional dos refugiados, mantendo-os dependentes de ajuda humanitária coordenada pela igreja.

A van se instalou no estacionamento da Pastoral por volta das 9h de desta terça-feira, 29. A chegada da equipe fez com que os haitianos sorrissem e comemorassem. Entretanto, a euforia deu lugar à frustração instantes depois: o posto só seria útil para quem já tivesse a carteira, o que é o caso de apenas metade dos refugiados.

Ao saber que o posto não emitiria carteiras, alguns haitianos chegaram a discutir entre eles mesmo, em creole. O clima chegou a ficar tenso, mas não houve agressões. Na manhã desta terça, pela primeira vez, houve reforço da segurança no local, feita por duas equipas da Polícia Militar.

O superintendente do Ministério do Trabalho, Luiz Antônio Medeiros, desmentiu informações passadas pelo ministro da Pasta, Manoel Dias. Em visita na tarde de segunda, Dias havia prometido que as carteiras seriam feitas na hora. Nesta terça, Medeiros afirmou não havia condições técnicas de emitir o documento na pastoral e voltou a prometer um mutirão, enviando vans para buscar os haitianos e emitir os documentos na superintendência do Ministério, também no centro.

Almoço. Os refugiados receberam tíquetes para almoçar na rede Bom Prato, do governo do Estado. Em fila, eles seguiram para lá. "Não tenho fome. Não consigo pensar em outra coisa, a não ser conseguir essa carteira de trabalho. Isso é desesperador", disse um refugiado que não quis revelar o nome.

Desde o início de abril, pelo menos 800 haitianos chegaram a São Paulo vindos do Acre. Metade conseguiu se estabelecer em casas de amigos e parentes, ou foram para o Sul do País. O restante ficou abrigado em São Paulo: 120 em albergues da Prefeitura e outros 280 na Casa do Migrante da Igreja Católica, no Glicério. Na madrugada de ontem, mais 44 haitianos chegaram à capital.

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Fernando Haddad (PT) defenderam nesta terça-feira, 29, o planejamento como a melhor forma de receber os imigrantes haitianos que chegam à cidade. Alckmin se referiu à vinda de imigrantes organizada pelo governo do Acre como "despejar pessoas", enquanto Haddad defendeu o Estado governado por Tião Viana (PT), ao dizer que "durante anos, o Acre recebeu os refugiados haitianos sozinho". / COLABOROU LAURA MAIA DE CASTRO

 

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