Paulo Giandalia/Estadão
Paulo Giandalia/Estadão

Haitiano 'preso' em Viracopos aceita abrigo, mas ainda pede ajuda

Luckner Filosier tomou vacina contra febre amarela e precisa esperar 8 dias para embarcar; agora, precisa de dinheiro para ir de Porto Príncipe, onde desembarcará, até sua cidade, no interior

Lucas Sampaio, Especial para o Estado

30 Janeiro 2015 | 21h23

CAMPINAS - Após ser impedido de embarcar para o Panamá em um voo da Copa Airlines e "morar" por três dias no aeroporto internacional de Viracopos, o haitiano Luckner Filosier, de 34 anos, aceitou o abrigo de uma igreja evangélica na periferia de Campinas e deixou o aeroporto - ele havia recusado ir para um albergue da Prefeitura.

"Aqui está muito melhor. No aeroporto não tinha lugar para dormir nem nada", diz Filosier, que está em um quarto da Ministério Cristo Vivo e Evangelho, pequena igreja no bairro São Domingos, próximo a Viracopos. "Consegui falar com um amigo, que avisou o meu irmão do meu problema", contou. Desde que chegou a Campinas vindo de Chapecó (SC), na terça-feira, 27, o haitiano não tinha conseguido avisar sua família.

"A igreja é pequena, mas tem quartos para receber pessoas. Conseguimos um colchão e vamos cuidar dele até a data de ir embora", afirma Eliomar Raimundo, de 29 anos, fiscal dos motoristas de uma empresa terceirizada que faz o transporte de passageiros entre um terminal e outro no aeroporto.

"Ele dormiu, jantou, tomou banho e está tranquilo, graças a Deus. Nem quis voltar para o aeroporto, preferiu ficar por lá", conta Raimundo. "No começo ele ficou receoso de receber ajuda, mas depois que me viu duas vezes aqui no aeroporto, viu que eu trabalhava aqui, ele mesmo veio falar comigo."

Sem saída. Filosier estava havia três dias "preso" no aeroporto, sem poder deixar do Brasil e voltar para casa por não ter tomado vacina contra febre amarela nem ter o cartão internacional de vacinação - uma exigência tanto do Panamá, onde faria escala, quanto do Haiti, seu destino.

Sem conseguir avisar a família - a mulher Fani, a filha Luni, de 3 anos, e seus pais, que o aguardam de volta ao Haiti após dois anos e meio -, sem dinheiro e com apenas uma pequena mala de mão, uma bolsa e uma sacola, ele vagueava pelos dois terminais do aeroporto empurrando um carrinho com suas bagagens.

Sensibilizados com a situação do haitiano, funcionários terceirizados do aeroporto recolheram dinheiro para que ele pudesse ao menos almoçar - o dinheiro dava só para uma refeição por dia, diz - e ofereceram um banheiro para que ele pudesse tomar banho.

Ele conseguiu tomar a vacina na quarta-feira, após pegar um ônibus sozinho e ir a um posto de saúde na periferia de Campinas, mas agora precisa esperar mais oito dias até conseguir embarcar - uma exigência da legislação. Apesar de sua carteira internacional de vacinação ficar pronta na segunda, 2, sua passagem foi remarcada para o dia 11 de fevereiro.

Ajuda. "Só quero voltar para o meu país", diz o rapaz de rosto jovem e cavanhaque que fala e compreende bem o português. Filosier diz ter chegado ao Brasil em 2012, de avião, por Manaus. O Brasil não exige vacina por febre amarela para entrar no país.

Filosier conta que tinha amigos na capital amazonense, mas logo partiu para o Sul porque o salário era maior. Em Chapecó, oeste de Santa Catarina, conseguiu um emprego como entregador de supermercado e juntou dinheiro suficiente apenas para comprar a passagem de volta. "Aqui no Brasil a coisa está muito difícil."

Com abrigo, comida e vacina tomada, o haitiano agora pede ajuda financeira porque diz ter gastado o pouco que tinha economizado com transporte e comida. "Não tenho dinheiro para ir de Porto Príncipe até a minha cidade", afirma o haitiano, que diz ser de Cap-Haitien (a 250 km ao norte da capital haitiana).

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