HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

Haddad retira sem-teto de nova ciclovia

Prefeitura removeu 78 moradores de rua que viviam no canteiro central sob o Minhocão; prefeito diz que grupo foi para alojamentos

Bruno Ribeiro e Rafael Italiani, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Onde antes havia 78 moradores de rua vivendo sob as pistas do Minhocão, hoje existe uma obra de ciclovia, planejada para ter 3,5 quilômetros quando pronta. Para implementar uma faixa para ciclistas entre as Avenidas São João e Amaral Gurgel, a gestão Fernando Haddad (PT) removeu as pessoas em situação de vulnerabilidade que moravam embaixo da estrutura e as transferiu para programas de assistência social.

A informação foi confirmada pelo próprio prefeito e faz parte de uma política de requalificação no entorno do Minhocão, que inclui a faixa para bicicletas e uma nova iluminação. “Ali viviam 78 moradores de rua. Pensamos: ‘Vamos fazer a obra e para onde esse povo vai?’ Ele estavam habituados a dormir ali”, disse Haddad.

Os antigos moradores do Minhocão foram encaminhados para centros de acolhida e outros tipos de alojamento administrados pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social. Hoje, quem passa perto da Estação Marechal Deodoro do Metrô não vê mais quase ninguém sob o Elevado. 

Segundo a chefe da pasta, Luciana Temer, a Prefeitura fez um diagnóstico de todos as pessoas que dormiam no canteiro central onde está a ciclovia. 

“Foi uma ação pontual, que tem sido feita em várias partes da cidade. As pessoas não podem fazer barracos na rua. Não era correto para eles nem com a cidade, já que os espaços públicos são de todos”, disse Luciana. Segundo ela, alguns dos 78 antigos moradores ganharam passagens de ônibus da Prefeitura para que pudessem voltar às cidades de origem. 

Ainda segundo Luciana, todos os moradores tiveram algum tipo de oferta, mas a Prefeitura não pode “obrigar” que a população de rua aceite os programas e viva nos centros de acolhida da pasta. Alguns dos antigos moradores recusaram as ofertas da Prefeitura. “Não saio. Me sinto mais seguro aqui do que em um albergue. Se acontecer alguma coisa, tenho para onde correr e aqui todo mundo me conhece”, disse Joílson de Oliveira, de 55 anos. Ele mora na rua desde 2001, depois de ter sido demitido por problemas com álcool. Em vez de ficar sob as pistas como há cerca de seis meses, hoje ele dorme ao relento, na frente da Estação Marechal Deodoro. 

Assim como Oliveira, Renato Ramos, de 41 anos, decidiu ficar, mesmo que longe da cobertura das pistas. Os dois dividem o mesmo papelão para dormir. “Continuo aqui na rua porque nesses abrigos tem muita gente louca. Minhas drogas são só o cigarro e o álcool.” Ambos são catadores de sucata, mas contam com doações em dinheiro de moradores do centro.

Comércio. Já os comerciantes do bairro, que criticam a ciclovia, dizem que o único benefício que ela trouxe foi a retirada da maioria dos moradores de rua do local. “Não tem quase ninguém usando essa ciclovia, mas me sinto mais seguro sem os moradores de rua. Valorizou (o espaço)”, afirmou Luiz Garcia, de 75 anos, proprietário de uma loja na Avenida São João. A ciclovia está prevista para ser inaugurada até o fim deste mês.

Já Marlene Bartholo, dona de uma loja de doces, diz que não eram todos os moradores do canteiro central que causavam problemas. “Alguns roubavam, sim. Mas a maioria era do bem. Eles até me chamavam de ‘madrinha’ porque eu sempre dava alguma comida.” 

Para Fabio Forte, presidente do Conselho de Segurança (Conseg) de Santa Cecília, os moradores vão voltar para o canteiro central. “À medida que terminar a obra, a tendência da população é voltar a habitar a área, montando novas barracas”, disse. Ele também criticou o “assistencialismo” de vizinhos do Minhocão que doam comida e dinheiro para os moradores de rua da região.

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