Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Guinle, o 1º arranha-céu de SP, é restaurado

Construído há quase um século, prédio de 7 andares no centro impressionava pela altura

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2011 | 00h00

Um dos prédios mais simbólicos do centro velho de São Paulo passa por minuciosa restauração. Desde fevereiro, 25 pessoas - entre pedreiros, carpinteiros, restauradores e arquitetos - fazem do Edifício Guinle, na Rua Direita, um movimentado canteiro de obras. A meta é recuperar, o mais fielmente possível, sua fachada. Construído entre 1913 e 1916, o prédio já passou por várias reformas - mas nunca por um restauro.

Considerado o primeiro arranha-céu da cidade - foi erguido em uma época em que seus 36 metros e apenas sete andares impressionavam, e muito -, o Guinle é o precursor da verticalização paulistana. E um dos pioneiros do concreto armado no Brasil.

O prédio saiu das pranchetas do arquiteto Hipólito Pujol Júnior, mas sua construção só foi aprovada pela Prefeitura depois de um laudo oficial. Explica-se: o então prefeito Barão de Duprat duvidou que um edifício de tal porte tivesse estabilidade. Pediu um aval ao engenheiro Francisco de Paula Souza, que era diretor da Escola Politécnica.

Essa história de quase um século só aumenta a responsabilidade dos encarregados da obra, com entrega prevista para outubro. "Vamos deixar o prédio autêntico, sem tirar qualquer resquício de sua história", garante a restauradora Janaína Guisato, que se dedica à recuperação dos ornamentos de argamassa na fachada - há figuras que lembram folhas e frutos de café, remetendo à riqueza do "ouro verde" que viabilizou a construção do prédio no início do século 20.

Orçada em R$ 700 mil, a restauração está sendo bancada pela empresa dona do prédio, a Mundial Calçados. Desde 1997, a rede mantém uma de suas 14 lojas no térreo. Dois outros andares são o estoque, um é um salão de eventos e o resto está vazio.

A administração da empresa não esconde o orgulho por ter adquirido o histórico edifício. Na loja, um cartão postal com foto e história do prédio é distribuído aos clientes. No site da rede, também há um destaque para o passado do endereço. E é comum que a empresa receba estudantes de arquitetura interessados em conhecer o espaço.

Processo. Antes de colocar a mão na massa, funcionários da Companhia do Restauro - contratada para a obra - tiveram um ano para planejar cada etapa. "Foi quando fizemos estudo para identificar características originais, lavamos a fachada e realizamos prospecção de cores", conta o arquiteto Paulo Danilo Machado. "Também foi nesse período que submetemos o projeto técnico à aprovação do Conpresp", conta o dono da Companhia do Restauro, Francisco Zorzete. O prédio foi tombado pelo órgão municipal de patrimônio em 2007.

Originalmente, a fachada não tinha pintura: era massa raspada - e assim será novamente. O telhado, hoje metálico, voltará a ser de cerâmica. Elementos decorativos metálicos, que há anos eram pintados de dourado, voltarão a ser na cor grafite. Por fim, 74 novas cremonas (trincos das janelas) foram fundidas conforme o desenho original, para substituir as que foram trocadas. Tudo para que o Guinle volte a ser imponente. Se não graças ao tamanho, pelo menos pelos detalhes de sua arquitetura.

O NOME DA RUA

DIREITA

REGIÃO CENTRAL

Já em 1638 havia referências da existência da via na malha urbana. Naquela época, ela era conhecida como Rua que vai para Santo Antônio, em uma clara alusão à Igreja de Santo Antônio, localizada hoje na Praça do Patriarca. Mais tarde, passou a ser conhecida como Direita da Misericórdia para Santo Antônio, em referência à Igreja da Misericórdia (hoje demolida), que ficava no Largo da Misericórdia.

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