Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

Governo quer acabar com cracolândia pela estratégia de 'dor e sofrimento'

Plano é dificultar acesso ao crack, deixar usuários suscetíveis a crises e forçá-los a buscar ajuda

Adriana Ferraz e Bruno Paes Manso,

04 Janeiro 2012 | 23h04

SÃO PAULO - Baseados na estratégia de "dor e sofrimento" de usuários de crack, pela primeira vez Prefeitura e Estado definiram medidas para tentar esvaziar a cracolândia, que resiste no centro desde os anos 1990. O Plano de Ação Integrada Centro Legal entrou em prática anteontem na região e não tem data para acabar.

A estratégia está dividida em três etapas. A primeira consiste na ocupação policial, cujo objetivo é "quebrar a estrutura logística" de traficantes que atuam na área. Além de barrar a chegada da droga, policiais foram orientados a não tolerar mais consumo público de crack. Usuários serão abordados e, se quiserem, encaminhados à rede municipal de saúde e assistência social. Em uma segunda etapa, a ação ostensiva da PM, na visão de Prefeitura e Estado, vai incentivar consumidores da droga a procurar ajuda. Na terceira fase, a meta será manter os bons resultados.

"A falta da droga e a dificuldade de fixação vão fazer com que as pessoas busquem o tratamento. Como é que você consegue levar o usuário a se tratar? Não é pela razão, é pelo sofrimento. Quem busca ajuda não suporta mais aquela situação. Dor e o sofrimento fazem a pessoa pedir ajuda", diz o coordenador de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania, Luiz Alberto Chaves de Oliveira.

Especialistas, porém, veem a estratégia com ressalvas. Para eles, forçar crises de abstinência pode provocar outras reações nos usuários, inclusive violentas. E estudos mostram que a falta da droga não causa busca por tratamento, pelo contrário. Na fissura, dizem alguns médicos, o usuário não tem discernimento para decidir o que é melhor ou não para ele (veja ao lado).

A vice-prefeita e secretária municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Alda Marco Antonio (PSD), discorda. "Cortando a chegada do crack e tirando o traficante da rua, a ação da saúde e da assistência social vai ficar facilitada", afirma, destacando que a inauguração de um centro de assistência na região central para 1.200 pessoas até março vai ampliar a capacidade de atendimento da Prefeitura (leia abaixo).

Tensão. A presença da PM na cracolândia também visa a facilitar o trabalho de agentes sociais e de saúde com os consumidores da droga. Mas, na manhã de ontem, o clima era tenso na Alameda Dino Bueno. Enquanto as equipes tentavam convencer os dependentes a aceitar ajuda, PMs entravam em prédios abandonados em busca de drogas e traficantes, diante de protestos dos usuários e apoio de comerciantes.

Segundo balanço da operação apresentado ontem, cerca de 400 pessoas frequentavam assiduamente a cracolândia. Entre elas, 60 menores de idade e 20 grávidas. Ontem, duas mulheres foram presas com 150 pedras de crack. Para evitar migração de usuários para regiões vizinhas, a PM prometeu aumentar as abordagens nos locais para onde os consumidores se mudarem. Desde ontem, a PM já identificou quatro novos pontos de consumo perto da cracolândia.

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