GESTÃO DE NEGÓCIOS E ATÉ CARRO EM ASILO

Em residenciais onde a mensalidade chega a R$ 12 mil, idosos ganham mais liberdade

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2013 | 02h04

Faz cinco meses que a estilista aposentada Fraya Sauer, de 80 anos, mudou-se para um asilo. Ela mesma tomou a decisão. Levou junto seu carro. "É um Audi velho, mas não fale que é velho, hein?! Adoro dirigir. Não abro mão de ter a liberdade de sair para jogar boliche no clube e passear no shopping", conta ela, que, quando mais jovem, era piloto amadora de aviões.

Aos poucos, o preconceito que existia quanto a residir ou manter parentes mais velhos em residenciais para idosos vai ficando no passado. Pelo menos quando se fala em asilos top, que cobram até R$ 12 mil mensais e proporcionam uma vida confortável e cheia de atividades na velhice.

"Quando fiquei viúva, há dois anos, entrei em depressão e não me acostumei a viver sozinha", conta Fraya. "Aqui me reencontrei. É minha casa. Tenho amigas e muitas atividades. E, graças a Deus, não dependo de ninguém."

Opções. Inaugurado em 1972 e mantido pela Liga Solidária - antiga Liga das Senhoras Católicas -, o Lar Sant'Ana fica no bairro Alto de Pinheiros, na zona oeste da cidade de São Paulo, e tem capacidade para atender 120 idosos. Morar ali custa a partir de R$ 7 mil - há preços diferenciados conforme as necessidades do morador. Em julho, após uma reforma, o residencial ganhou uma academia especialmente para a terceira idade: com aparelhos de fitness importados da Finlândia, desenvolvidos para os velhinhos.

O Residencial Santa Catarina, mantido pela Associação Congregação de Santa Catarina - mesma instituição filantrópica que gere o Hospital Santa Catarina -, fica no bairro do Paraíso, perto da Avenida Paulista. Existe desde 2000 e atualmente é casa de 95 idosos - a mensalidade custa R$ 12 mil.

Com uma escala de atendimento bem menor, o Residencial Verbo Amar - que funciona desde 2008 na Granja Viana, condomínio em Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo - abriga 14 residentes, que desembolsam de R$ 4,8 mil a R$ 5,5 mil por mês.

Vida ativa. "Viver aqui é como morar em um hotel cinco-estrelas", conta Anna Lyrs Guimarães de Carvalho, de 87 anos. Ela vive em um residencial para idosos há cinco anos. "Fiquei viúva e aí quis me mudar para cá. Saio e entro na hora que quero e tenho uma vida com muita autonomia", conta Anna, que na véspera da conversa com a reportagem tinha almoçado em um shopping com as amigas.

Aos 91 anos, a simpática Elza Gouveia Marques vai além: ela "trabalha" de dentro do asilo. "Vivo de renda. Então, preciso cuidar de minhas finanças, não é? Meu genro até tem procuração, caso precise resolver algo. Mas prefiro tomar conta de tudo", diz.

Por telefone, ela conversa diariamente com a imobiliária responsável pela administração de seus imóveis de aluguel e, sempre que necessário, com o gerente de seu banco. Para papear com filhos e netos, aprendeu a mexer no computador. "Escrevo e-mails e mando recados pelo Facebook", diz Elza. "É bom morar aqui porque a filha não manda tanto... Acho que é um fim de vida até que bom."

Para ela, o ambiente é muito familiar. "Eu já conhecia este residencial, porque minha mãe morou aqui nos anos 1970 e morreu aqui aos 99 anos", relata. "Mudei-me para cá há 9 anos, com meu marido. Era bom porque aqui a estrutura dava condições para que nos preocupássemos apenas um com o outro. Não fazia sentido eu ficar cuidando da casa enquanto meu marido estava doente. Ele morreu há seis anos."

Morador de um residencial há sete anos, o médico aposentado Nelson Merched Daher mudou-se para lá com a mulher - que sofria de diabete e precisava de cuidados constantes. Depois que ela morreu, ele continuou lá. Até há pouco tempo, saía com frequência para atuar como voluntário na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) - atividade que desempenhou por 16 anos. "Atualmente, saio para ir ao barbeiro e para fazer compras", conta Daher.

Ex-funcionária de um escritório, Jenia Barros, de 86 anos, também sai com frequência do residencial onde mora há um ano e meio. "Gosto de passear no shopping e de ir ao salão de beleza", conta. Já o delegado aposentado Rubens Raphael Dalle Luche, de 79 anos, que vive há 3 em um asilo, gosta mesmo é de restaurantes. Este é o principal motivo que o leva a sair do retiro.

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