Fogo em favela mata 3 irmãos e prima

Sobrecarga elétrica teria causado incêndio em Cidade Ademar; moradores dizem que subprefeitura omitiu socorro, mas órgão nega

CAMILA BRUNELLI, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2012 | 03h02

Um incêndio em uma favela no Jardim Consórcio, zona sul da capital paulista, provocou a morte de três crianças e de uma jovem de 16 anos, por volta das 12h de ontem. A Defesa Civil acredita que o fogo tenha começado por causa de sobrecarga de energia elétrica e, depois, facilitado pela baixa umidade relativa do ar.

De acordo com testemunhas, a mãe das crianças saiu para comprar leite e deixou os três filhos com a prima. Letícia, de 16 anos, ficou tomando conta de Daniel, de 5, Davi, de 3, e Danilo, de 1 ano e 10 meses.

Vizinhos disseram que as crianças estavam trancadas no barraco. A dona de casa Gleice da Silva, de 33, que estava perto do local na hora em que o fogo começou, disse que Letícia havia fechado a porta e dormia com as crianças.

"Foi tudo muito rápido. Eu ouvi eles lá dentro, batendo na parede, gritando por socorro. Meu marido e outros cinco rapazes ainda tentaram arrancar as madeiras do barraco, mas não deu", disse Gleice. "O pior foi que, justamente hoje (ontem), ficamos sem água", lamentou.

Paulo Sérgio Ferreira, de 25 anos, marido de Gleice, chorava na tarde de ontem. "Estamos revoltados porque não conseguimos salvar essas crianças."

Paredão humano. Segundo Ferreira, quando os bombeiros chegaram, pediram a funcionários da Subprefeitura de Cidade Ademar - vizinha do terreno onde fica a favela - que abrissem o portão para facilitar o acesso ao barraco foco do incêndio. "Mas eles fizeram um paredão humano e falaram que lá nós não entraríamos. Se tivessem ajudado, essas crianças poderiam estar feridas agora, mas vivas."

A família também disse que pediu água aos funcionários, mas não foi atendida.

Hidrojato. A Subprefeitura de Santo Amaro, responsável pelo terreno, negou a informação dos moradores e afirmou que os servidores da Subprefeitura de Cidade Ademar foram os primeiros a prestar socorro aos moradores - inclusive mobilizando o caminhão hidrojato, usado para lavar vias públicas, para ajudar a controlar o incêndio.

Outros cinco barracos foram parcialmente queimados, como o da dona de casa Monica de Souza, de 26 anos. Grávida de nove meses, ela dormia na hora do incêndio. Foi acordada por vizinhos e chegou a pular o muro que separa a favela da subprefeitura para fugir.

"O mais provável é que o fogo tenha se propagado para dentro da casa e, talvez, atingido a mangueira de gás", explicou o coordenador da Defesa Civil, Jair Paca de Lima.

Ele ainda esclareceu que o grande número de ligações irregulares, popularmente conhecidas como "gatos", somado à baixa umidade relativa do ar na cidade, aumenta as chances de incêndio. Principalmente em favelas.

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