Festival em clima tenso

Um violão quebrado, um artista em pânico e os generais

Juliana Ravelli, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2015 | 16h00

Sobre quebrar o violão e jogá-lo no público, Sérgio Ricardo disse a um amigo: “Não podia ter feito outra coisa”. E completou: “Que estragou minha carreira, nada. Tenho um lastro atrás de mim. E esse público que me vaiou?.” 

A conversa foi publicada pelo Estado, em 22 de outubro de 1967, um dia após a final do 3.º Festival de Música Popular Brasileira. Na noite anterior, em um teatro da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, na Bela Vista, jovens mudavam o rumo da música no País, entoavam canções que entrariam para a história e desafiavam a ditadura militar.

O jornalista Zuza Homem de Mello, de 81 anos, era técnico de som da TV Record na época, emissora que exibia o evento. Conta que, naquele festival, a vaia ganhou tanta importância quanto os aplausos. “Lembro da luta que foi fazer com que os cantores fossem ouvidos.”

Após a confusão com Sérgio Ricardo, Caetano Veloso andava de um lado para o outro, preocupado com o que aconteceria quando também subisse ao palco. Nada perto, porém, do pânico que tomou conta de Gilberto Gil em uma das eliminatórias. Foi preciso buscá-lo no hotel para que cantasse.

Segundo Zuza, as principais canções finalistas foram a grande marca do festival. “Eram quatro músicas de tal nível que qualquer uma que vencesse não teria problema. A melhor gravação de Roda Viva é aquela.”

Mas a noite de 21 de outubro de 1967 foi de Edu Lobo e Marília Medalha. Ovacionados, fizeram muita gente chorar com Ponteio, a campeã do festival. Zuza revela que esta era a sua preferida. “Era uma música que me tocava profundamente”, diz. “O júri preferia músicas com conteúdo político. Se o júri preferia, imagina o público.”

Domingo no Parque, com Gil e Os Mutantes, ficou em segundo lugar, seguida por Roda Viva, interpretada por Chico Buarque e o MPB-4, e Alegria, Alegria, com Caetano e os Beat Boys. 

O último festival da Record foi exibido em 1969. Chico, Gil, Caetano e Edu viraram ícones. E naquele teatro da Brigadeiro hoje fica o Teatro Renault, um dos principais palcos para musicais na cidade.

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