Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Febre funk troca o pancadão pelo luxo e ganha SP

Celebrando consumo e excessos, estilo responde por 60 a 70 shows por semana na capital; 70% das atrações são paulistanas

Bruno Paes Manso, O Estado de S. Paulo

23 Março 2013 | 17h15

A Mansão Fluxo é uma balada diferente, aberta há três meses no Capão Redondo, zona sul, tradicional reduto do rap. Foi inaugurada para aproveitar a febre funk, o ritmo do momento em São Paulo.

Na frente do palco, há uma piscina, iluminada por luzes verdes, estilo raio laser. No bar, destilados como uísques Black, Blue e Red Label, espumante Chandon e vodca Absolut. Jovens vindos de Osasco, Guarulhos e da periferia sul fumavam narguilé em rodinhas, com essência de frutas. Cervejas só em baldinhos de gelo com dez unidades.

Quem agitou a Mansão no sábado foi o MC Da Leste, de 20 anos. Quatro anos atrás, ele compôs seu primeiro funk usando um computador numa lan house da periferia de São Paulo. Hoje, já faz 40 shows por mês, cobrando R$ 5 mil por evento, o que garante um faturamento mensal de R$ 200 mil. "Minha vida mudou da água para champanhe", diz, antes de entrar no Porsche Cayenne que leva sua trupe para os outros quatro shows que fez no sábado passado.

Nos últimos dois anos, celebrando os excessos e o consumo popular, o mercado do funk em São Paulo cresceu e se consolidou como o principal do Brasil. Os MCs paulistanos abandonaram o estilo proibidão, que cantava o crime e o sexo, para reinventar o chamado funk ostentação, com letras sobre carros e bebidas importadas, marcas sofisticadas e caras, inspirados no hip-hop americano.

A invasão do funk em São Paulo já ocorria em 2009, quando o ritmo passou a tomar o lugar do rap entre o som preferido nas periferias da capital. Naquela época, no começo da explosão, os empresários calculavam que havia 40 baladas funk por fim de semana. Cerca de 80% delas eram na periferia e quase todos os artistas vinham de Rio de Janeiro e Baixada Santista.

Atualmente, já são mais de 300 baladas na capital tocando funk, segundo empresários que vendem os shows. No interior do Estado, são cerca de 150 casas. Em um único fim de semana, atualmente, ocorrem em São Paulo entre 60 e 70 shows. Ao contrário de antigamente, hoje cerca de 70% das atrações de funk são da capital.

Com o crescimento econômico, o funk se tornou o ritmo do momento, chegando a diferentes classes sociais. "São Paulo foi a última a aderir ao funk no Brasil. Só que, quando abraçou, foi numa velocidade incrível. Em cinco anos, acredito que os funks de São Paulo vão dominar o mercado nacional", diz Fernando Luís Mattos da Matta, o DJ Marlboro. Fundador do ritmo, o DJ carioca desbravou a noite de São Paulo, começando a tocar funk em 2005.

Depois de tocar no Capão Redondo, MC da Leste foi assistir a um racha em Interlagos. Um dos corredores coloca no carro o nome de sua ONG, chamada Pobre Loco. No estacionamento do autódromo, carros de som faziam um minipancadão. Em seguida, foi para Francisco Morato, na Grande São Paulo, num show que começou perto das 2 horas. Na mesma noite, tocou ainda em Taboão da Serra e no Sítio do Ré, finalizando o trajeto às 4h, em Parelheiros, no extremo sul da capital. Ao todo, foram mais de 250 km, que garantiram R$ 20 mil de cachê.

Não pôde nem dormir, porque na manhã seguinte pegou um voo para Florianópolis (SC), onde fez um show para universitários. Em cima do palco, MC da Leste mandou refrões de sucesso: "Quem tem motor faz amor", cantou. Para depois perguntar em mais uma canção: "Que homem nunca teve amante?"

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