Fanfarra paulista faz sucesso internacional

Os 120 instrumentistas de Atibaia vieram de bairros pobres e de classe média e agora buscam auxílio para disputar mundial na Alemanha

Tatiana Favaro, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2010 | 00h00

Lafayete Camilo Mendes tem 15 anos e um trompete como amigo inseparável. Morador do bairro Caetetuba, na periferia de Atibaia, no interior de São Paulo, ajuda o pai, pedreiro e responsável por serviços gerais, a manter a casa com parte dos R$ 600 que ganha trabalhando em uma big band e na Orquestra Sinfônica da cidade em que nasceu. Na casa da família com cinco filhos, à tarde, a música que sai do aparelho de som é do trompetista norte-americano Allen Vizzutti. "Eu ouço muita música, vários compositores, sinfônicas, bandas marciais, orquestras", diz ele. A mãe, Neuraci, não estranha quando o som do trompete de Lafayete chega a altos volumes no meio do dia. "Ela gosta. E eu estudo diariamente."

A história do adolescente traduz a batalha de muitos dos 120 integrantes da Fanfarra Municipal de Atibaia (Fama) que, desde a infância vivida em bairros pobres ou de classe média baixa do município, já veem a música como o caminho a ser seguido. Juntos, os músicos e dançarinos lutam, agora, para conseguir R$ 150 mil para pagar passagem aérea e viajar para Alemanha, onde será realizado um campeonato mundial em julho deste ano.

Vitória. Fundada em 1990 e hoje com cem integrantes, a Fama foi campeã mundial em 2005 pela World Association of Marching Show Bands, em competição realizada em Taubaté, interior de São Paulo. O título conquistado colocou a Fama e o Brasil entre as melhores bandas do gênero no mundo.

Em 2006, após vencer um dos sete campeonatos brasileiros em que levou medalha de ouro, a Fama foi convidada para representar o Brasil no 13.º Festival Internacional de Bandas e Fanfarras, em Melipilla, no Chile. Foi a primeira viagem internacional da fanfarra. No ano passado, participou do Word Music Contest, na cidade de Kerkrade, sul da Holanda, de onde os músicos trouxeram outro ouro, mantendo-se entre as dez melhores bandas do mundo.

A trompista Maria Suellen Magalhães, de 18 anos, é um exemplo de que mais do que sonhos, a Fama ensina a estipular metas e alcançá-las. Suellen, como é conhecida, estuda música desde os 10 anos, quando começou tocando corneta na Escola Municipal Waldemar Bastos Buhler, em Atibaia. Hoje, dá aulas de trompa na escola em que teve o primeiro contato com a música. "Comecei desse jeito e agora volto para dar aula, ao lado do meu antigo professor. É uma forma de devolver o que me foi dado", conta Suellen.

Sinfônica. Suellen foi além. Mais que emprego, renda e satisfação, conseguiu vaga na Orquestra Sinfônica de Bragança Paulista e na Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo. "Eu não tive uma adolescência como a dos meus amigos", lembra. "Eles saíam e eu ficava estudando - ou para a escola, ou música. Mas muitos deles não sabem o que vão fazer da vida hoje e eu, além de saber, já trabalho com isso", afirma.

A trompista foi criada no Jardim Imperial, bairro de classe média baixa de Atibaia. A mãe, funcionária de uma fábrica de alimentos congelados, e o pai, motorista, não só apoiaram a escolha da menina, de se profissionalizar em música, como se orgulham do resultado. "Eles falam para todo mundo que eu toco trompa."

O regente Felipe Ibraim Ferreira, filho do fundador da Fama, Reginaldo Ângelo Ferreira, disse estar surpreso, a cada dia, com a evolução do projeto. "Não imaginávamos que fosse tomar essas proporções", disse. "A gente faz, trabalha, realiza e, de repente, olha algo enorme e só aí percebe tudo o que lutou."

Superação

ROGÉRIO BRITO MAESTRO

"A Holanda foi como uma copa do mundo das fanfarras, realizada de quatro em quatro anos. Para se ter ideia, não tinha nem a bandeira brasileira no estádio onde ocorreu a competição, ninguém achou que isso era possível. E nós chegamos lá"

"Tem crianças na Fama que nunca tinham visto o mar. A primeira vez que viram o mar foi no Chile. Tem adolescente que nunca tinha ido a São Paulo e conheceu a Holanda"

"A nossa batalha perdura porque vemos que é possível a criança sonhar em viver de música"

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